por Redação do Interior
Com o Galo da Madrugada novamente sobre a Ponte Duarte Coelho, faz-se não apenas o anúncio de que o Carnaval começou. Mas, sobretudo, um gesto coletivo de memória, afeto e cuidado. Batizada de Galo Folião Fraterno, a escultura gigante que domina o Centro do Recife neste ano transforma o maior símbolo da festa popular em um manifesto visual pela fraternidade, pela saúde mental e pela dignidade humana.
Com 32 metros de altura e oito toneladas, o Galo homenageia duas figuras que dedicaram a vida a cuidar do outro: Dom Helder Câmara, o arcebispo que fez da fé um ato de resistência e amor ao povo, e Nise da Silveira, a médica que enxergou na arte um caminho para libertar mentes e acolher dores invisíveis.
No peito do Galo, pulsa um Sagrado Coração iluminado, construído com fragmentos de papel e resíduos tecnológicos. Ele não representa apenas a herança espiritual de Dom Helder — conhecido como o “Dom da Paz” —, mas simboliza a urgência de um tempo que pede mais empatia, mais escuta e mais humanidade. Durante anos à frente da Arquidiocese de Olinda e Recife, o arcebispo via o Carnaval como expressão de fé popular, esperança e resistência, uma celebração onde o povo também rezava com o corpo em movimento.

A outra metade dessa homenagem se revela no processo. Inspirada no legado de Nise da Silveira, a construção do Galo incorpora a arte como cuidado. Oficinas de arteterapia envolveram pessoas em situação de rua e usuários da Rede de Atenção Psicossocial, que ajudaram a criar partes do figurino por meio de colagens, pontilhismo e texturas. Cada detalhe carrega histórias, afetos e a potência de quem, muitas vezes, permanece invisível na cidade.
Assinada pelo multiartista Leopoldo Nóbrega e pela designer Germana Xavier, a alegoria mantém o compromisso com a sustentabilidade: desde 2019, o Galo é produzido integralmente com materiais reciclados. CDs, plásticos, tampas de garrafa, redes de pesca, conchas, lonas, tecidos e garrafas PET se transformam em brilho, cor e movimento. O que seria descarte vira arte; o que era sobra ganha significado.

A cauda do Galo une sombrinhas de frevo, penas volumosas feitas de tecidos reaproveitados e referências ao Sertão e ao litoral pernambucano. Gibões do cangaço dialogam com biojoias feitas de conchas e redes de pesca, em um alerta silencioso sobre os mares e mangues. Entre as penas, surgem espirais de DNA, celebrando a vida, enquanto as 27 estrelas da bandeira brasileira, produzidas em impressoras 3D por jovens de comunidades do Recife, conectam tradição popular, ciência e futuro.
As cores de 2026 — verde, amarelo, azul e branco — evocam o Brasil e também o papel do Recife como cidade-sede da Copa do Mundo Feminina de 2027, ampliando o diálogo entre cultura, identidade e projeção internacional.
A edição deste ano incorpora ainda robótica e inteligência artificial, não como espetáculo vazio, mas como extensão de um processo coletivo que reúne artistas, artesãos, marisqueiras, cenógrafos, jovens da periferia e usuários de políticas públicas. Cerca de 200 pessoas participam da cocriação da escultura, reforçando a ideia de que o Carnaval não nasce pronto: ele é tecido a muitas mãos.

Mais do que um ícone visual, o Galo Folião Fraterno é um convite. Convida à reflexão sobre saúde mental, à valorização do cuidado em liberdade, à reconexão com o outro e com o meio ambiente. Em tempos de pressa e endurecimento, o Carnaval do Recife lembra que também é possível celebrar com consciência, dançar com afeto e transformar alegria em ato político e humano.
Com o Galo instalado na ponte, pernambucanos não anunciam apenas o início da festa, mostram o coração do Recife batendo alto — lembrando que o Carnaval, antes de tudo, é um encontro entre corpos, histórias e esperanças.
