por Redação do Interior
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apura seis mortes suspeitas e 225 notificações de pancreatite associadas ao uso de medicamentos conhecidos como canetas emagrecedoras no Brasil. Os registros constam no VigiMed, sistema oficial de farmacovigilância da agência, além de dados oriundos de pesquisas clínicas realizadas no país.
As notificações abrangem o período desde 2018, com crescimento expressivo a partir de 2020, e envolvem medicamentos da classe dos agonistas do receptor GLP-1, indicados para o tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade. Entre os princípios ativos relacionados estão semaglutida, liraglutida, lixisenatida, tirzepatida e dulaglutida, presentes em marcas amplamente conhecidas no mercado.
De acordo com os dados consolidados, apenas no VigiMed foram registradas 145 notificações de suspeita de pancreatite entre janeiro de 2020 e dezembro de 2025. Quando incluídos os relatos provenientes de estudos clínicos, o número total sobe para 225 casos. Desses registros, seis indicam desfecho suspeito de óbito, conforme informado pelos próprios notificadores. A Anvisa não detalhou em quais anos ocorreram essas mortes nem os estados envolvidos, embora os casos de pancreatite tenham sido registrados em São Paulo, Paraná, Bahia e Distrito Federal.
O tema ganhou repercussão internacional após alerta emitido no Reino Unido, no início deste ano, sobre episódios graves de pancreatite em usuários de medicamentos da mesma classe. No país europeu, há 19 mortes em investigação relacionadas ao problema. Em escala global, bancos internacionais de farmacovigilância contabilizam 14.530 notificações de pancreatite associadas aos agonistas do GLP-1, com 378 óbitos suspeitos.
Apesar dos números, autoridades sanitárias e especialistas reforçam que não há indicação para suspensão do uso desses medicamentos. A avaliação técnica aponta que os dados ainda são classificados como suspeitos, uma vez que cada notificação precisa passar por análise individualizada para verificar se existe relação causal direta com o fármaco.
Outro fator que preocupa os órgãos reguladores é a subnotificação. No Brasil, a comunicação de eventos adversos não é obrigatória, o que significa que médicos e hospitais não são legalmente compelidos a informar casos de pancreatite em pacientes que utilizam esses medicamentos. Especialistas avaliam que, por esse motivo, o número real pode ser superior ao registrado oficialmente.

A Anvisa também destaca que nem todos os relatos envolvem medicamentos regulares. Há notificações relacionadas ao uso de canetas falsificadas, irregulares ou manipuladas, vendidas como se fossem produtos originais. Nesses casos, não há controle de procedência, dose ou composição, o que amplia significativamente o risco de efeitos adversos graves.
O risco de pancreatite já é conhecido pela comunidade médica e consta nas bulas de parte desses medicamentos como evento adverso raro ou incomum. No caso da tirzepatida, por exemplo, a inflamação aguda do pâncreas é descrita como uma reação possível durante o tratamento, exigindo interrupção imediata diante de suspeita clínica.
Especialistas alertam que o público-alvo dessas terapias — pessoas com obesidade e diabetes — já apresenta, por si só, maior predisposição à pancreatite, o que dificulta estabelecer uma relação direta entre o medicamento e o evento adverso. Ainda assim, o protocolo clínico recomenda monitoramento regular da função pancreática, especialmente em pacientes com histórico de risco.
Outro ponto levantado é a ausência de dados oficiais sobre o número total de usuários desses medicamentos no Brasil, o que impede calcular a proporção de pacientes afetados. Estimativas indicam que apenas o mercado ilegal de canetas emagrecedoras movimente cerca de R$ 600 milhões por ano, ampliando o desafio regulatório.
Como resposta ao avanço das notificações, a Anvisa determinou, em abril de 2025, a retenção obrigatória da receita médica para a venda desses medicamentos. A medida busca garantir avaliação clínica criteriosa antes do início do tratamento. Segundo a agência, até o momento, a estratégia tem se mostrado eficaz, mas novas ações regulatórias não estão descartadas, caso surjam evidências adicionais de risco.
