por Redação do Interior
A Polícia Federal deflagrou nesta sexta-feira (6) a Operação Zona Cinzenta, que investiga suspeitas de irregularidades na gestão de recursos da Previdência do Estado do Amapá (Amprev). O foco da apuração está na aplicação de R$ 400 milhões em Letras Financeiras do Banco Master, instituição que entrou em liquidação extrajudicial em novembro de 2025, após enfrentar uma severa crise de liquidez.
A ação foi autorizada pela 4ª Vara da Justiça Federal e resultou no cumprimento de quatro mandados de busca e apreensão em Macapá, capital do estado. Segundo a PF, o objetivo é apurar possíveis crimes de gestão temerária e gestão fraudulenta envolvendo recursos do Regime Próprio de Previdência Social, responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões dos servidores estaduais.
Dirigentes da Amprev são alvos
Nesta fase da investigação, a Polícia Federal mira o diretor-presidente da Amprev, Jocildo Silva Lemos, além de dois integrantes do comitê de investimentos do fundo: Jackson Rubens de Oliveira e José Milton Afonso Gonçalves. De acordo com a apuração, os três teriam sido responsáveis pelos votos favoráveis à aplicação dos recursos no Banco Master, decisão tomada em meados de julho de 2024.
Jocildo Lemos foi nomeado para a presidência da Amprev em 2023 pelo governador Clécio Luís (União Brasil). A indicação, no entanto, ocorreu por articulação política do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), de quem Lemos foi tesoureiro de campanha nas eleições de 2022. Em evento público realizado em 2024, o dirigente chegou a agradecer publicamente ao senador pelo convite para assumir o comando da previdência estadual.
Relação política amplia repercussão
A investigação ganhou maior repercussão política por envolver nomes ligados a Alcolumbre. Além da indicação de Jocildo Lemos, o irmão do senador, o advogado Alberto Alcolumbre, integra o Conselho Fiscal da Amprev. Apesar disso, ele não é alvo da operação, e até o momento Davi Alcolumbre não figura como investigado. A assessoria do parlamentar nega qualquer participação nas decisões administrativas ou nos investimentos realizados pelo fundo.
Situação financeira da previdência do Amapá
Dados do balanço de 2024, o mais recente divulgado, apontam que a Amprev possuía ativo circulante de aproximadamente R$ 10 bilhões, sendo R$ 8,3 bilhões aplicados em investimentos e aplicações financeiras de curto prazo. Apesar do volume expressivo, o fundo apresentava um déficit patrimonial de R$ 387 milhões, após o desconto dos passivos e das obrigações futuras com aposentadorias e pensões.
Entre os entes federativos que investiram no Banco Master, a previdência do Amapá aparece como o segundo maior aplicador, atrás apenas do Rioprevidência, do Estado do Rio de Janeiro.
Caso Master atinge diversos estados e municípios
A investigação no Amapá faz parte de um contexto mais amplo envolvendo fundos de previdência estaduais e municipais que aplicaram recursos no Banco Master antes de seu colapso financeiro. Além do Amapá (R$ 400 milhões) e do Rio de Janeiro (R$ 970 milhões), também aparecem na lista estados como Amazonas (R$ 50 milhões) e municípios de diferentes regiões do país, incluindo Maceió (R$ 97 milhões), Cajamar (R$ 87 milhões) e São Roque (R$ 93,15 milhões), entre outros.
Desdobramentos no Rio de Janeiro acendem alerta
No caso do Rioprevidência, a apuração avançou para medidas mais duras. O ex-presidente do fundo, Deivis Marcon Antunes, foi preso no início de fevereiro, no âmbito da segunda fase da Operação Barco de Papel, que investiga a aplicação de quase R$ 1 bilhão em ativos do Banco Master. Antes da prisão, ele havia deixado o cargo após o avanço das investigações.
Órgãos de controle apontam que alertas sobre o risco excessivo dessas aplicações foram ignorados pela antiga gestão.
Investigação segue em andamento
No Amapá, a Polícia Federal segue analisando documentos e materiais apreendidos para apurar responsabilidades e dimensionar eventuais prejuízos ao fundo previdenciário. Novas fases da operação não estão descartadas.
