TJAL entrega nota técnica para reavaliar homenagens a Fernandes Lima nos 114 anos do Quebra de Xangô

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por Redação do Interior

Há exatos 114 anos, na virada dos dias 1º e 2 de fevereiro, Maceió viveu um dos episódios mais violentos de sua história, marcado pela perseguição sistemática às religiões de matriz africana. O episódio, conhecido como Quebra de Xangô, resultou na destruição de mais de 150 terreiros, agressões físicas, prisões arbitrárias e intimidações em massa.

Em manifestação pública, o desembargador Tutmés Airan, do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJAL), relembrou a gravidade do episódio e criticou a permanência de homenagens oficiais a personagens históricos ligados à violência religiosa.

“Há exatos 114 anos, na virada do dia 1º e 2 de fevereiro, um grande ataque paramilitar de intolerância religiosa foi orquestrado, dizimando mais de 150 terreiros em Maceió. Religiosos de matriz africana foram perseguidos e agredidos fisicamente. Instrumentos e objetos sagrados foram destruídos e depredados. Prisões arbitrárias e intimidações aconteceram de forma massiva”, afirmou.

Segundo o desembargador, o episódio teve entre seus principais responsáveis Fernandes Lima, figura que ainda hoje é homenageada com o nome de uma das maiores avenidas da capital alagoana.

“Este episódio nefasto ficou conhecido como o Quebra de Xangô, e teve Fernandes Lima como um de seus maiores responsáveis. E é este mesmo Fernandes Lima, com histórico marcado por intolerância religiosa, violência e oportunismo político, o homenageado com o nome de uma das maiores avenidas da capital alagoana”, destacou.

Nesta segunda-feira (2), data simbólica que marca os 114 anos do Quebra de Xangô, a Coordenadoria de Direitos Humanos do TJAL se reúne com o Defensor Público-Geral do Estado, Fabrício Leão Souto, para a entrega de uma nota técnica que analisa a pertinência da alteração da denominação de ruas e logradouros públicos que prestem homenagem a Fernandes Lima.

“Por meio da Coordenadoria de Direitos Humanos do TJ Alagoas, estaremos em reunião com o Defensor Público-Geral do Estado, Fabrício Leão Souto, para a entrega de uma nota técnica que analisa a pertinência de alterar a denominação de ruas e logradouros públicos que prestem homenagem a Fernandes Lima”, afirmou Tutmés Airan.

A audiência contará ainda com a participação do juiz Vinícius Augusto de Souza Araújo, coordenador da Comissão de Equidade Racial do TJAL e integrante da Coordenadoria de Direitos Humanos, e do coordenador de Direitos Humanos do Tribunal de Justiça de Alagoas, Pedro Montenegro.

Ao final de sua manifestação, o desembargador ressaltou a importância do reconhecimento institucional e da reparação histórica.

“A justiça histórica vem, na maioria das vezes, bem tarde. Ainda pior do que tardar é quando ela nunca chega, ou quando não se reconhece a urgência de realizá-la o quanto antes”, concluiu.

Contexto Histórico

O Quebra de Xangô ocorreu em 1912, em um contexto de forte instabilidade política em Alagoas, marcado por disputas entre oligarquias e pelo uso de milícias paramilitares como instrumento de repressão e controle social. Embora tenha sido apresentado à época como uma ação de “manutenção da ordem”, o episódio teve como alvo central as religiões de matriz africana, associadas de forma racista à marginalidade e à subversão.

Pesquisadores apontam que os ataques foram promovidos com conivência — e, em alguns casos, participação direta — de agentes do Estado, o que agravou o caráter institucional da violência. Casas de culto foram invadidas durante a madrugada, objetos sagrados foram quebrados ou queimados em locais públicos, e líderes religiosos foram presos, espancados ou obrigados a abandonar a cidade.

Como consequência direta da perseguição, muitas comunidades passaram a realizar seus rituais de forma silenciosa e clandestina, fenômeno que ficou conhecido como “Xangô Rezado Baixo”, uma estratégia de sobrevivência religiosa diante do medo e da repressão. O trauma coletivo provocado pelo episódio resultou ainda no apagamento cultural, no deslocamento forçado de praticantes e no silenciamento histórico das tradições afro-religiosas em Alagoas por décadas.

Somente a partir do final do século XX o Quebra de Xangô passou a ser reconhecido oficialmente como um dos maiores episódios de intolerância religiosa do Brasil, sendo hoje referência em debates sobre racismo religioso, memória, reparação histórica e direitos humanos. Em 2012, cem anos após os ataques, o Estado de Alagoas reconheceu publicamente a violência cometida e pediu perdão às comunidades de terreiro.

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