por Redação do Interior
A Justiça federal dos Estados Unidos determinou neste sábado (31) a libertação imediata do menino equatoriano Liam Conejo Ramos, de 5 anos, e de seu pai, Adrian Conejo Arias, detidos há quase duas semanas por agentes do Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro (ICE). A decisão foi proferida pelo juiz Fred Biery, do Tribunal Distrital do Oeste do Texas, que considerou a remoção da família inconstitucional e fez duras críticas à condução da operação migratória.
Na ordem judicial, Biery estabeleceu que pai e filho devem ser soltos o mais rápido possível, no máximo até terça-feira (3 de fevereiro), e proibiu qualquer tentativa de transferência ou deportação da família enquanto o processo judicial segue em tramitação. Embora a decisão não encerre o caso migratório, o magistrado afirmou que a detenção não pode continuar diante das violações apontadas.
Críticas duras à política migratória
Em um despacho incomum pelo tom contundente, o juiz classificou a operação como “mal concebida e incompetentemente implementada”, especialmente por envolver uma criança pequena. Nomeado ao cargo pelo ex-presidente Bill Clinton, Biery acusou o governo de exercer um “poder desenfreado” e de impor “crueldade desnecessária” à família.
O magistrado afirmou ainda que a atuação das autoridades ignorou princípios fundamentais da história constitucional americana, citando a Declaração de Independência, e defendeu uma política migratória “mais ordenada e humana do que a atualmente em vigor”.
Caso gerou indignação
A detenção ganhou repercussão em todo o país após a divulgação de imagens de Liam usando uma mochila do Homem-Aranha e um chapéu azul, logo após sair da escola, em Columbia Heights, subúrbio de Minneapolis, no estado de Minnesota. As imagens provocaram indignação pública, protestos e críticas às práticas migratórias adotadas durante o governo Donald Trump.
Segundo o distrito escolar local, Adrian havia acabado de buscar o filho na pré-escola quando foi abordado pelos agentes do ICE. A superintendência afirma que, após a prisão do pai, os agentes teriam pedido que a própria criança batesse à porta da residência para verificar se havia outros adultos no local — episódio descrito por educadores como uso da criança como “isca”, acusação negada pelas autoridades federais.
A escola informou ainda que este foi o quarto caso de detenção de um menor de idade apenas neste mês em operações migratórias na região, o que teria provocado medo entre famílias imigrantes e impacto direto na frequência escolar.
Relatos de sofrimento emocional e físico
O caso se agravou após denúncias sobre o estado emocional e de saúde do menino durante a detenção no centro migratório de Dilley, no Texas, onde pai e filho estavam presos há 12 dias. O congressista democrata Joaquin Castro, que visitou a família na unidade, relatou que Liam apresentava sinais claros de abatimento emocional, tristeza e apatia.
Segundo o parlamentar, o menino dormia excessivamente e demonstrava um nível de atenção muito abaixo do esperado para sua idade, o que ele associou ao impacto psicológico da detenção. “Era evidente que ele não estava bem”, afirmou Castro, descrevendo o ambiente como inadequado para crianças pequenas.
Familiares também relataram problemas físicos, como febre, dores no estômago, episódios de vômito e recusa alimentar. A mãe da criança afirmou que o filho não tem conseguido se alimentar adequadamente e atribuiu parte do agravamento à qualidade da comida oferecida no centro de detenção.
Pessoas próximas a família apontam ainda mudanças comportamentais, como perguntas recorrentes sobre a mãe, a escola e objetos pessoais usados no dia da prisão, sinais interpretados por especialistas como indicativos de ansiedade, confusão e sofrimento emocional.
Governo nega irregularidades
O Departamento de Segurança Interna (DHS), responsável pelo ICE, nega que tenha havido abuso. A versão oficial sustenta que o pai fugiu ao perceber a abordagem, “abandonando” o menino, e que a custódia da criança ocorreu apenas por razões de segurança. O órgão não comentou especificamente os relatos sobre o estado emocional e físico do garoto.
Advogados da família afirmam que Adrian Conejo Arias possui um pedido de asilo em andamento e que não havia ordem formal de deportação no momento da prisão, argumento que embasou tanto a liminar anterior que suspendeu a remoção quanto a decisão final que determinou a libertação.
Debate sobre crianças e imigração
Organizações de direitos humanos alertam que a detenção de menores, sobretudo em idade pré-escolar, pode causar danos psicológicos duradouros.
Com a libertação determinada pela Justiça, o caso de Liam passa a ser visto como um marco simbólico na contestação judicial às práticas do ICE e deve continuar a influenciar discussões políticas e legais sobre imigração e proteção à infância no país.
