Abertura das importações aprofunda colapso do setor têxtil argentino e empresários falam em pior crise da história

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por Redação do Interior

O setor têxtil da Argentina atravessa um dos momentos mais críticos de sua trajetória recente. Empresários, sindicatos e entidades industriais alertam que a combinação entre abertura acelerada das importações, retração do mercado interno e ausência de políticas de transição industrial colocou a atividade à beira do colapso. Para muitos, trata-se da pior crise já enfrentada pelo segmento, superando até mesmo episódios históricos de recessão.

Dados do próprio setor indicam que fábricas operam hoje com níveis mínimos de atividade. Em algumas regiões industriais, a utilização da capacidade instalada não ultrapassa 20%, enquanto a média nacional gira em torno de 29%, um patamar considerado insustentável para a manutenção de empregos e da estrutura produtiva. Máquinas estão paradas, estoques se acumulam e linhas de produção vêm sendo desativadas progressivamente.

O impacto mais imediato tem sido sentido no mercado de trabalho. Milhares de postos formais já foram eliminados, sobretudo em pequenas e médias empresas, que concentram grande parte da mão de obra do setor. Empresários relatam fechamento de unidades e dificuldades para manter operações básicas, diante da queda nas vendas e do avanço de produtos importados a preços muito inferiores aos custos de produção locais.

A liberalização do comércio exterior, adotada pelo governo do presidente Javier Milei como eixo central de sua política econômica, é apontada como o principal fator por trás da crise. Apenas em 2025, as importações de produtos têxteis cresceram mais de 70% em relação ao ano anterior, impulsionadas pela redução de tarifas e pela flexibilização de regimes de importação.

Grande parte dessas mercadorias vem da China e de outros países asiáticos, onde os custos de produção são significativamente mais baixos. A concorrência se intensificou ainda mais com a expansão do comércio eletrônico internacional, por meio de plataformas como Shein e Temu, que passaram a abastecer diretamente consumidores argentinos, muitas vezes por meio de sistemas de envio simplificados, com menor carga tributária e fiscalização reduzida.

Segundo representantes da indústria, a abertura ocorreu de forma abrupta, sem um período de adaptação ou políticas de compensação que permitissem modernização tecnológica, acesso a crédito ou reconversão produtiva. O setor argumenta que, historicamente, sempre contou com algum nível de proteção diante de sua alta dependência de mão de obra e de custos estruturais elevados no país.

O governo, por sua vez, sustenta que a maior concorrência externa é necessária para reduzir preços ao consumidor, aumentar a eficiência da economia e integrar a Argentina aos fluxos globais de comércio. Autoridades reconhecem que alguns setores podem sofrer perdas no curto prazo, mas afirmam que o ajuste é parte de um processo mais amplo de transformação do modelo econômico.

Especialistas avaliam, no entanto, que a crise têxtil reflete um problema mais profundo da indústria argentina, que enfrenta queda generalizada da produção, enfraquecimento da demanda interna e dificuldades para competir internacionalmente em um cenário de liberalização acelerada. Para eles, sem uma estratégia de transição, o risco é de desindustrialização permanente, com efeitos duradouros sobre emprego, renda e desenvolvimento regional.

Enquanto o debate se intensifica, o setor têxtil segue pressionado por um cenário de incerteza, no qual empresários afirmam lutar diariamente para manter as portas abertas — em um contexto que muitos já classificam como o mais grave da história recente da indústria argentina.

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