por Redação do Interior
A Costa Rica chega às urnas neste domingo (1º) em uma das eleições mais delicadas de sua história recente. O pleito definirá se o país seguirá fiel ao modelo democrático que o tornou referência na América Latina ou se avançará rumo a um projeto de concentração de poder associado ao presidente Rodrigo Chaves, líder populista que acumula cerca de 50% de aprovação popular.
O alerta é feito por duas das principais lideranças políticas do país. Para a ex-presidente Laura Chinchilla, o momento é crítico. “A democracia está em risco”, afirma. O ex-presidente Luis Guillermo Solís reforça o diagnóstico: “São as eleições mais decisivas das últimas décadas”, em um ambiente marcado por polarização intensa, insegurança pública e desgaste institucional.
Desde que assumiu o governo, Chaves adotou um estilo confrontacional, especialmente contra o Judiciário e órgãos de controle. O presidente acusa o sistema judicial de agir de forma arbitrária e chegou a falar em um suposto “golpe judicial” após investigações sobre possíveis irregularidades no financiamento de sua campanha. Em 2025, liderou uma marcha até a Suprema Corte para exigir a saída do procurador-geral Carlo Díaz, responsável por apurações que envolvem tanto o presidente quanto casos ligados ao crime organizado.
Projeto de poder e mudanças constitucionais
Chaves tem defendido publicamente a elaboração de uma nova Constituição ou reformas profundas na atual Carta Magna. Setores governistas também sustentam mudanças que permitiriam a reeleição presidencial contínua — hoje proibida no país. Em discursos recentes, o presidente chegou a pedir “poder absoluto” para seu movimento político, o que, na prática, abriria caminho para alterações que concentram atribuições no Executivo.
O tom hostil em relação à imprensa, à sociedade civil e às instituições de fiscalização tem alimentado preocupações sobre possíveis retrocessos democráticos. Para analistas e ex-chefes de Estado, a estratégia de polarização adotada pelo governo mina a confiança pública nas instituições e enfraquece os mecanismos de freios e contrapesos que historicamente sustentaram a estabilidade costarriquenha.
Crise de segurança e fim da “exceção costarriquenha”
Um dos principais motores da popularidade de Chaves é a sensação crescente de insegurança. Durante décadas, a Costa Rica foi vista como uma exceção regional, relativamente blindada da violência que atinge outros países da América Central. Esse cenário mudou.
Nos últimos anos, os índices de homicídio bateram recordes, o narcotráfico ampliou sua presença em portos estratégicos e bairros urbanos, e disputas entre facções passaram a moldar a dinâmica do crime. Comunidades convivem com o medo, enquanto cresce a percepção de que o Estado perdeu capacidade de resposta.
Segundo Solís, a atuação governamental tem sido improvisada. Ele aponta a ausência de uma política consistente de prevenção e critica a falta de investimentos proporcionais na polícia e no sistema prisional. Mesmo assim, Chaves promete uma política de “linha dura” inspirada no modelo do presidente salvadorenho Nayib Bukele, incluindo a construção de um presídio nos moldes do controverso Centro de Confinamento do Terrorismo (Cecot).
Críticas à gestão e políticas sociais
Para o ex-presidente Solís, o balanço do governo é negativo. “Vejo muito poucas realizações”, afirma. Ele sustenta que obras de infraestrutura frequentemente atribuídas à atual gestão foram, na verdade, iniciadas por governos anteriores. Além disso, denuncia cortes e subfinanciamento em áreas sociais sensíveis, como bolsas de estudo, merenda escolar e programas de assistência a populações vulneráveis.
No campo da segurança, Solís observa que o agravamento dos indicadores ocorreu justamente durante os três anos e meio do atual governo. Embora reconheça fatores regionais, como o avanço do narcotráfico, ele atribui parte relevante do problema à má gestão.
Ataques institucionais e risco democráticoLaura Chinchilla avalia que o país vive um ponto de inflexão. Segundo ela, o estilo de governo de Chaves rompe com padrões históricos da política costarriquenha. “Vivemos quatro anos vendo coisas que nunca vimos antes”, afirma, citando ataques diretos do Executivo contra a mídia, o Judiciário, os órgãos de fiscalização, partidos de oposição e, mais recentemente, o Tribunal Supremo Eleitoral.
A ex-presidente afirma que não se trata apenas de retórica. Ela aponta episódios concretos, como tentativas de asfixiar financeiramente veículos de comunicação, ameaças contra a controladora-geral da República — que passou a receber proteção armada —, denúncias de espionagem política por parte da inteligência policial e até o uso de vistos americanos como instrumento de pressão contra opositores.
Apesar disso, Chinchilla reconhece que as instituições ainda resistiram. “Elas cumpriram seu papel”, diz, citando juízes, promotores, a Controladoria e a imprensa. O temor, porém, é o futuro. “A questão é se o país suporta mais quatro anos. Temo que será difícil.”Eleição como plebiscitoNa avaliação de Chinchilla, o partido governista transformou deliberadamente a eleição em um referendo sobre o presidente. Chaves assumiu o protagonismo da campanha, enquanto a candidata oficialista, Laura Fernández, manteve-se distante de debates e aparições públicas. “O objetivo não era votar na candidata, mas dizer sim ou não ao presidente”, resume.
Caso o governismo vença, a ex-presidente vê risco concreto de concentração de poder. O plano, segundo ela, inclui reformas constitucionais, mudanças no processo de escolha de juízes, enfraquecimento de órgãos de controle e a reestruturação da Procuradoria-Geral e da Câmara Constitucional.
O momento é ainda mais sensível porque, nos próximos anos, mais da metade do Judiciário será renovada, assim como cargos-chave de supervisão institucional. “É aí que danos irreversíveis podem ocorrer”, alerta.
Popularidade, propaganda e abstenção
Rodrigo Chaves aposta em sua alta aprovação para impulsionar o partido governista. Do outro lado, cerca de 20 legendas tentam fragmentar o voto e forçar um segundo turno. Para evitar essa etapa, Fernández precisa alcançar 40% dos votos.Solís atribui a popularidade do presidente à combinação entre discurso anti-establishment, exploração do medo da violência e uma estratégia de comunicação agressiva. “Há uma máquina de propaganda permanente, com milhares de trolls e assessores internacionais”, afirma, comparando novamente o modelo ao de Bukele.
Outro fator decisivo pode ser a abstenção. “Cada 5% de eleitores que não votam representam cerca de 150 mil votos”, observa Solís, destacando que a baixa participação tende a favorecer o governismo, cuja base é mais mobilizada.
Para ele, o resultado das urnas vai além da escolha de um governo. “A Costa Rica pode enviar ao mundo o sinal de que ainda é possível conter tendências autocráticas e preservar a convivência democrática.”
Fonte: Reportagem de Carlos S. Maldonado, El País Texto original publicado em espanhol
Adaptação jornalística com redação original para portal de notícias
