por Redação do Interior
O pedido de exoneração do secretário de Defesa Social de Pernambuco, Alessandro Carvalho, apresentado por policiais civis, está diretamente ligado a uma investigação preliminar sigilosa conduzida pela Polícia Civil que acabou vindo a público e gerando forte repercussão política, jurídica e institucional.
O que aconteceu
Entre agosto e outubro de 2025, a Polícia Civil realizou uma apuração baseada em denúncia anônima que apontava o suposto uso de um carro oficial da Prefeitura do Recife para pagamento de propina. No contexto dessa verificação, a Diretoria de Inteligência da Polícia Civil (Dintel) passou a monitorar o veículo utilizado por Gustavo Queiroz Monteiro, secretário de Articulação Política e Social do Recife, inclusive com a instalação de um dispositivo de rastreamento.
Houve inquérito policial?
Não. A apuração ocorreu no âmbito de uma Verificação de Procedência das Informações (VPI), procedimento preliminar utilizado para avaliar se denúncias anônimas possuem base mínima para justificar a abertura de um inquérito. Como nenhum indício de crime foi confirmado, o procedimento foi arquivado e o inquérito formal não chegou a ser instaurado.
Onde começa a crise
O caso ganhou dimensão nacional após a exibição de uma reportagem em rede de televisão, o que levantou questionamentos sobre a legalidade das diligências adotadas, especialmente o uso de tecnologia de rastreamento sem autorização judicial. A partir da exposição pública, o episódio deixou de ser apenas um procedimento interno e passou a ser tratado como uma crise institucional envolvendo a condução da política de segurança pública do Estado.
Posicionamento dos policiais civis
Entidades representativas da categoria afirmam que a divulgação do caso maculou a imagem da Polícia Civil de Pernambuco, uma instituição com mais de dois séculos de atuação, e expôs servidores a riscos jurídicos. Segundo o sindicato, policiais estariam sendo pressionados a cumprir ordens consideradas juridicamente frágeis, o que comprometeria princípios como legalidade, autonomia técnica e segurança funcional.
Para a categoria, o fato de o próprio secretário de Defesa Social ter assumido publicamente o comando da operação transfere a ele a responsabilidade direta pela condução do procedimento. Por isso, os policiais defendem que sua exoneração é necessária para garantir isenção na apuração dos fatos e preservar o caráter da Polícia Civil como instituição de Estado, e não de governo.
Reação das autoridades
A repercussão levou o Ministério Público de Pernambuco (MPPE) a encaminhar ofício à Secretaria de Defesa Social solicitando informações detalhadas sobre a investigação preliminar. O órgão informou que tomou conhecimento do caso por meio da imprensa e que irá analisar os dados antes de decidir sobre eventuais providências.
A Secretaria de Defesa Social sustenta que a atuação da Polícia Civil ocorreu dentro da legalidade, no uso regular da VPI, e afirma que a apuração teve como objetivo esclarecer suspeitas envolvendo patrimônio público. A governadora Raquel Lyra também negou irregularidades e defendeu a investigação de denúncias de corrupção.
Já o prefeito do Recife, João Campos, anunciou que pretende acionar a Justiça, alegando uso indevido da estrutura policial e violação de garantias legais.
Investigações paralelas
Além da controvérsia sobre o monitoramento, a SDS instaurou um inquérito para apurar o vazamento de informações sigilosas da apuração, incluindo mensagens trocadas em um grupo de WhatsApp criado para acompanhar as diligências. Um comissário da Polícia Civil, afastado da Dintel, é apontado como suspeito e já responde a procedimentos na Corregedoria e a investigações em curso no Ministério Público.
O episódio provocou debates sobre os limites das diligências preliminares baseadas em denúncias anônimas, sobretudo quando envolvem tecnologias de monitoramento e rastreamento. Especialistas divergem sobre o alcance legal dessas medidas na ausência de inquérito formal e autorização judicial.
Enquanto o MPPE analisa as informações solicitadas, os policiais civis afirmam que seguirão mobilizados em defesa da legalidade, da autonomia investigativa e da imagem institucional da Polícia Civil de Pernambuco, mantendo a pressão por mudanças no comando da Secretaria de Defesa Social.
