do Interior
A série Clássicos da Poesia Alagoana se despede reverenciando aquele que se tornou o maior nome da literatura produzida em Alagoas. Com Graciliano Ramos, o ciclo se encerra não apenas como um gesto de homenagem, mas como um retorno às origens de um escritor cuja grandeza começou, silenciosamente, no verso.

Antes de se consagrar como o romancista rigoroso de Vidas Secas e Angústia, Graciliano iniciou sua vida literária como poeta. Ainda adolescente, publicou poemas em jornais e revistas de Alagoas e do Rio de Janeiro, quase sempre sob pseudônimos que hoje soam como ecos de um tempo distante: Feliciano Olivença, Almeida Cunha, Soeiro Lobato, Anastácio Anacleto. Entre 1907 e 1921, esses versos circularam em um ambiente literário marcado por resquícios do romantismo, do parnasianismo e do simbolismo.
A poesia foi, para Graciliano, mais que exercício juvenil — foi escola. Leitor atento, formou-se entre livros de versos, muitos deles anotados, sublinhados, debatidos em silêncio. Admirava autores como Olavo Bilac e Bocage, poetas que ajudaram a moldar seu senso de ritmo, precisão e economia verbal. Não por acaso, mesmo quando abandonou o verso, a poesia permaneceu invisível em sua prosa seca, dura e exata.

Essa relação aparece de forma ficcionalizada em São Bernardo, quando o narrador Paulo Honório confessa nada aprender com discussões sobre poesia — um contraste revelador com o próprio autor, que aprendeu muito antes de negar. Já maduro, Graciliano renegou seus poemas iniciais e tentou impedir sua circulação, como quem deseja apagar os rastros da formação. Ainda assim, a recuperação desse material hoje permite compreender melhor o caminho percorrido até a construção de uma das obras mais contundentes da literatura brasileira.
Encerrar a série com Graciliano Ramos é reconhecer que a poesia esteve na origem de tudo — mesmo quando silenciada. É ela que sustenta o rigor da linguagem, o peso dos silêncios, a força contida de cada frase. Assim, a Série Clássicos da Poesia Alagoana chega ao fim celebrando não apenas o poeta que Graciliano foi, mas o escritor imenso que ele se tornou — e que segue, incontornável, na história da literatura do Brasil.

