por Redação do Interior
Fitas antigas, guardadas por décadas em um armário de estúdio no Rio de Janeiro, devolveram ao público uma das vozes mais delicadas e decisivas da música brasileira. O produtor musical Raymundo Bittencourt encontrou gravações inéditas de Nara Leão durante uma reorganização de arquivos antigos — um achado que deu origem ao álbum póstumo “A Bossa Rara de Nara”, lançado recentemente nas plataformas digitais.
O material estava armazenado em formatos hoje obsoletos, como cassete e DAT, em um armário dividido por Bittencourt e Roberto Menescal, um dos pilares da bossa nova. Não havia data, ficha técnica ou qualquer indicação de contexto. Apenas uma anotação simples, escrita à mão: “Nara”. A curiosidade levou o produtor a ouvir as fitas — e, apesar do desgaste do tempo, a voz surgiu intacta, inconfundível, carregada da suavidade que marcou gerações.
“Quando demos play, ficou claro que havia algo muito especial ali”, conta Bittencourt. “Mas o estado das fitas era delicado. Nem tudo pôde ser salvo.”
A partir das gravações em melhores condições, o produtor iniciou um processo cuidadoso de restauração sonora, envolvendo limpeza digital, equalização e reconstrução do ambiente musical. Em alguns registros, havia apenas a voz de Nara e um violão distante, quase perdido no fundo da gravação.O trabalho exigiu tempo e sensibilidade. A ideia não era modernizar o som, mas preservar sua essência — o canto contido, íntimo e emocional que sempre caracterizou a cantora.
“Chega de Saudade” e o simbolismo do retorno
Entre as faixas restauradas, uma escolha foi inevitável: “Chega de Saudade”, canção que simboliza o nascimento da bossa nova, lançada por João Gilberto em 1958. A música foi a primeira a chegar às plataformas, no dia 19 de janeiro, aniversário de nascimento de Nara Leão, em um gesto carregado de simbolismo.
“Demorei quase uma semana só nessa faixa”, explica Bittencourt. “Era uma voz retirada de uma fita antiga, com pouquíssimo acompanhamento audível. O desafio foi preservar a naturalidade sem artificializar o resultado.”
O álbum reúne oito faixas, todas inéditas nessas versões, que percorrem diferentes momentos da carreira de Nara Leão. Entre elas está “Diz que Fui por Aí”, samba de Zé Keti que a cantora ajudou a transformar em bossa nova em seu disco de estreia, lançado em 1964.
Também integra o repertório “Fotografia”, composição de Tom Jobim gravada originalmente por Sylvia Telles, em 1959. Nara voltou à canção em 1977, em dueto com o próprio Jobim, e agora surge em uma interpretação até então desconhecida.
Outro destaque é “Manhã de Carnaval”, de Luiz Bonfá e Antonio Maria, eternizada na trilha sonora do filme Orfeu Negro. A seleção inclui ainda “O Barquinho”, parceria de Roberto Menescal e Ronaldo Bôscoli, apresentada nesta versão com um clima mais leve e solar do que a gravação de Maysa, lançada em 1961.
Canções menos conhecidas e laços fundamentais
Entre as faixas menos populares está “Tristeza de Nós Dois”, de Durval Ferreira, Bebeto Castilho e Maurício Einhorn, de 1960. Já “Você e Eu”, de Vinicius de Moraes e Carlos Lyra, ocupa um lugar especial na história da cantora.
Foi com essa canção que Nara estreou em disco, no álbum “Depois do Carnaval”, de Carlos Lyra, lançado em 1963. No ano seguinte, Lyra teria papel decisivo em seu primeiro álbum solo, consolidando uma parceria que marcou o início de sua trajetória fonográfica. Se Menescal foi uma referência estética para a bossa nova, Lyra é lembrado como uma espécie de padrinho musical de Nara.
Mistério sobre a origem das Gravações
Apesar da proximidade entre Nara e Menescal, não há registros formais que expliquem quando, onde ou em que contexto as gravações foram feitas. Segundo Bittencourt, nem mesmo Menescal reconheceu o material.
“Ele acredita que pode ter sido alguma sessão para outros projetos, algo que ficou guardado e nunca foi finalizado”, diz o produtor. “Se ele não sabe, eu sei menos ainda.”
A estimativa é de que o material tenha sido gravado há cerca de 50 anos.
Para concluir o álbum, Bittencourt criou novos arranjos e reuniu músicos que atuam regularmente em seu estúdio: Diógenes de Souza (baixo), Leandro Freixo (teclados e flauta) e João Cortez (bateria). O violão do próprio produtor conduz os arranjos, preservando o clima intimista da bossa nova.
Roberto Menescal participa como convidado especial, com vocais discretos em “Chega de Saudade” e “O Barquinho”. O disco se encerra com “Wave”, outra composição de Tom Jobim, completando um repertório que funciona tanto como redescoberta quanto como porta de entrada para o gênero.
Disponível nas plataformas digitais, “A Bossa Rara de Nara” devolve ao público a voz serena, precisa e profundamente humana de Nara Leão — agora em registros que o tempo tentou esconder, mas não conseguiu apagar. E deixa no ar a esperança de que outras fitas esquecidas ainda possam revelar novos capítulos da história da MPB.
