por Redação do Interior
A proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de criar o chamado Board of Peace — ou Conselho da Paz — tem provocado forte divisão diplomática e reacendido o debate sobre a crise do multilateralismo e o futuro da Organização das Nações Unidas (ONU).
Apresentado durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos, o conselho é descrito pela Casa Branca como um órgão internacional voltado à mediação de conflitos, com foco inicial na reconstrução de Gaza no pós-guerra e possibilidade de atuação em outras regiões do mundo. A iniciativa, no entanto, tem sido recebida com desconfiança por diversos governos e analistas internacionais.
Entre os pontos que mais geraram controvérsia estão as características institucionais do novo órgão. Pelo desenho apresentado até agora, Trump pretende ocupar o cargo de presidente vitalício do conselho, concentrando amplos poderes de decisão. Já os países integrantes teriam mandatos de três anos, com possibilidade de permanência condicionada a contribuições financeiras elevadas.
Para críticos, a proposta configura uma tentativa de criar uma estrutura paralela à ONU, esvaziando o papel do sistema multilateral construído no pós-Segunda Guerra Mundial e aprofundando disputas por legitimidade internacional.
Países que aderiram
Apesar das críticas, ao menos 22 países já confirmaram adesão ao Conselho da Paz. A lista inclui:Albânia, Argentina, Arábia Saudita, Armênia, Azerbaijão, Bahrein, Bulgária, Catar, Cazaquistão, Egito, Emirados Árabes Unidos, Hungria, Indonésia, Israel, Jordânia, Kosovo, Marrocos, Mongólia, Paquistão, Turquia, Uzbequistão e Vietnã.
A Bielorrússia aparece em algumas listas como participante, embora sua adesão ainda seja tratada com cautela por parte da diplomacia internacional.
O grupo reúne, sobretudo, países do Oriente Médio e da Ásia, alguns com papel direto ou estratégico em conflitos regionais e na discussão sobre a reconstrução de Gaza.
Países que recusaram
Em contrapartida, governos europeus de peso rejeitaram formalmente o convite. França, Noruega, Suécia, Eslovênia, Reino Unido, Espanha e Alemanha manifestaram preocupação com a legitimidade do conselho, a falta de transparência institucional e o risco de enfraquecimento do sistema liderado pela ONU.
A posição desses países reforça a resistência da Europa a iniciativas unilaterais que possam redefinir as regras da governança global fora dos organismos tradicionais.
Países sem resposta
Outros governos ainda não se posicionaram oficialmente. Entre eles estão Brasil, China, Índia, Itália, Rússia, Canadá, Ucrânia, Singapura, Tailândia, Grécia, Croácia e Paraguai. A União Europeia, como bloco, também não apresentou resposta formal até o momento.
Brasil: cautela e estratégia diplomática
O Brasil foi oficialmente convidado a integrar o Conselho da Paz, mas não demonstrou pressa em responder. O Itamaraty avalia a proposta com cautela e deve, antes de qualquer decisão, encaminhar pedidos formais de esclarecimento técnico sobre possíveis brechas jurídicas e o funcionamento do estatuto do novo órgão.
Nesta sexta-feira (23), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez duras críticas à iniciativa de Trump. Segundo ele, o mundo vive um momento “muito crítico” do ponto de vista político, e a Carta da ONU estaria sendo “rasgada”.
“Em vez de corrigir a ONU, como a gente reivindica desde 2003, com a entrada de novos países — como México, Brasil e países africanos — o que está acontecendo é que o presidente Trump está fazendo uma proposta de criar uma nova ONU, como se ele sozinho fosse o dono da ONU”, afirmou Lula.
Segundo fontes da diplomacia brasileira, o governo pretende usar o debate em torno do Conselho da Paz como argumento para defender uma reforma imediata do Conselho de Segurança da ONU durante a Assembleia Geral da organização, prevista para setembro. A estratégia inclui articular outros líderes em torno da democratização do sistema multilateral.
Diplomatas avaliam que o plano de Trump funciona como um “atestado da falência” do atual modelo de governança global, sobretudo diante da incapacidade do Conselho de Segurança de resolver crises como a de Gaza.
“Se Trump parar o genocídio em Gaza, ele prova que a ONU não serve mais para nada no formato atual”, avaliou uma fonte ligada à diplomacia brasileira.
Canadá fica fora
O Canadá teve um percurso distinto. Inicialmente, Ottawa sinalizou interesse cauteloso, levantando dúvidas sobre os custos e a falta de clareza institucional do conselho. Após críticas públicas do governo canadense, a Casa Branca decidiu retirar o convite, o que praticamente encerra qualquer possibilidade de participação do país.
Um mundo em disputa institucional
O avanço — ainda que parcial — do Conselho da Paz evidencia um cenário de fragmentação da ordem internacional. Enquanto aliados estratégicos dos Estados Unidos tendem a aderir à proposta, países comprometidos com o multilateralismo tradicional veem na iniciativa um risco de concentração de poder e enfraquecimento das normas internacionais.
Para o Brasil, o debate vai além da adesão ou não ao conselho de Trump. Trata-se de uma oportunidade para pressionar por mudanças profundas na ONU — sob o argumento de que, se reformas não ocorrerem, novas estruturas paralelas continuarão surgindo, redefinindo o equilíbrio do poder global.
