por Redação do Interior
Uma delegação bipartidária do Congresso dos Estados Unidos iniciou nesta sexta-feira (16) uma visita oficial a Copenhague para demonstrar solidariedade à Dinamarca e à Groenlândia, após declarações do presidente norte-americano Donald Trump defendendo que os EUA assumam o controle da ilha ártica. A agenda ocorre em paralelo ao envio de contingentes militares europeus à Groenlândia, sinalizando uma mudança concreta na postura do continente diante da escalada retórica de Washington.
O grupo de 11 parlamentares americanos reúne senadores democratas e republicanos, além de membros da Câmara dos Representantes. A comitiva tem encontros com a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, com o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, e com líderes empresariais dinamarqueses. Também estava previsto um diálogo com integrantes do Parlamento dinamarquês, sobre o qual foi hasteada, nesta sexta-feira, a bandeira da Groenlândia em um gesto simbólico de unidade política.
“Estamos demonstrando solidariedade bipartidária com o povo deste país e com a Groenlândia. Eles são aliados históricos dos Estados Unidos”, afirmou o senador democrata Dick Durbin à imprensa.
Segundo ele, as declarações de Trump “não refletem o sentimento do povo americano nem do Congresso”.
Escalada diplomática e ameaça de tarifas
A visita acontece em meio ao agravamento das tensões diplomáticas. Na quarta-feira, autoridades americanas e dinamarquesas se reuniram em Washington, encontro que terminou sem consenso. Representantes da Dinamarca relataram um “desacordo fundamental” com os Estados Unidos sobre o futuro da Groenlândia.
Na sexta-feira, Trump voltou a endurecer o discurso e sugeriu a imposição de tarifas contra países que se oponham à reivindicação americana sobre o território, reiterando que os EUA “precisam da Groenlândia” por razões de segurança nacional.
A Casa Branca, por sua vez, minimizou o impacto da reação europeia. A porta-voz Karoline Leavitt declarou que o envio de tropas ao Ártico “não afetará o processo de tomada de decisão do presidente nem seu objetivo de adquirir a Groenlândia”.
Europa reage com presença militar
Enquanto isso, países europeus começaram a transformar o discurso político em ação concreta. Reino Unido, França, Alemanha, Suécia, Noruega, Finlândia e Holanda anunciaram o envio de pequenos contingentes militares para a Groenlândia, como parte da preparação para a chamada Operação Arctic Endurance, voltada a exercícios conjuntos e ao monitoramento da segurança no Ártico.
O presidente francês Emmanuel Macron confirmou que uma primeira equipe de militares da França já está no território, com reforços previstos nos próximos dias, incluindo meios terrestres, aéreos e marítimos. Já o Ministério da Defesa da Alemanha informou que a missão busca avaliar como os países da Otan podem cooperar para manter a região segura.
O ministro da Defesa da Dinamarca, Troels Lund Poulsen, foi além ao afirmar que o país trabalha para “estabelecer uma presença militar permanente” na Groenlândia, em cooperação com aliados europeus.
Em discurso anual às Forças Armadas, Macron alertou para um cenário global instável. “Vivemos em um mundo onde forças desestabilizadoras despertaram. Certezas que duraram décadas estão sendo desafiadas”, disse, acrescentando que “a paz está ameaçada” e que a Europa precisa estar presente onde seus interesses forem colocados em risco.
Clima de apreensão na Groenlândia
Na capital groenlandesa, Nuuk, a visita da delegação americana foi recebida com cautela, mas também com alívio. Moradores relatam crescente ansiedade diante da possibilidade de uma ação mais agressiva dos Estados Unidos. Muitos acompanham rastreadores de voo e de embarcações para monitorar movimentos militares na região e relatam dificuldades para dormir.
“Não acredito que o Congresso dos EUA aprovaria uma ação militar aqui”, disse à AFP um representante sindical de 39 anos. “Se eles querem salvar a própria democracia, precisam agir agora.”
O primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, afirmou que “o diálogo e a diplomacia são o caminho correto”, mas reconheceu que “a situação de segurança é grave” e que os interesses geopolíticos na região são significativos, especialmente diante da disputa por recursos naturais no Ártico.
Frustração diplomática e precedente regional
A primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, resumiu o impasse após reuniões em Washington com o secretário de Estado Marco Rubio e o vice-presidente JD Vance: “A ambição dos EUA de tomar a Groenlândia permanece intacta”.
A presença de Vance nas negociações elevou o nível de preocupação. Em visita anterior à base militar americana de Pituffik, em março, o vice-presidente defendeu que o controle dos EUA sobre a Groenlândia seria essencial para conter China e Rússia, chegando a acusar a Dinamarca de não cumprir adequadamente seu papel de defesa.
Há cerca de um ano, quando Trump voltou a falar publicamente sobre a possibilidade de anexar a Groenlândia — inclusive pela força —, o clima local era de ceticismo. Agora, o tom mudou. Autoridades e moradores observam com apreensão os desdobramentos, citando o precedente da Venezuela como um alerta para o uso de pressão econômica e política em disputas territoriais.
Grandes manifestações estão previstas para este sábado em várias cidades da Dinamarca e da Groenlândia, incluindo Nuuk, Copenhague, Aarhus, Aalborg e Odense, em protesto contra as ambições territoriais de Trump. Nas redes sociais, milhares de pessoas confirmaram participação nos atos organizados por associações groenlandesas.
