*Manoel Ferreira Lira morrosanto@gmail.com
Todos os anos, mais ou menos entre novembro e dezembro, eles se reúnem: matriarca, filhos, genros (menos um) e nora, netos, netas, bisnetos e bisnetas, familiares do marido e alguns poucos amigos íntimos. De crianças ainda bebês aos seus quase 90 anos. Uma reunião familiar, eminentemente familiar, se ali não estivessem os poucos amigos.
Vindos de longe, de mais de 30 quilômetros em estradas de asfalto e de terra batida, a reunião se dá embaixo de uma Tamarindeira de quase cem anos – com sombra e frutos desde o início daquela fazenda, que foi antes de seu cunhado.
Aliás, aqui uma explicação: o cunhado recebeu aquelas terras de presente quando de seu casamento lá pelos idos do século passado. Ele também reunia, uma vez ou outra, seus oito filhos naquelas terras. Ou, quando das férias escolares, um descanso para futuras professoras e engenheiros, médico e odontólogo. Os tempos, porém, levaram seu cunhado a vender as terras ao irmão, década de 60 do século XX.
Voltemos ao presente. Seu marido, morando na cidade grande, não esquecia aquelas terras onde criava gado. Gostava dali. Unia o útil ao agradável, isto é, o uso da fazenda com gado ajudava em muito a economia da família.
Morto o marido, a matriarca preservou a fazenda, economicamente produtiva e parte viva da memória de seu amado. Mesmo se deslocando com dificuldade devido aos anos, ela vive ali naquele momento como se ao lado do marido estivesse sempre, todos os dias.
Esta última reunião, no dia 20 de novembro, uma quinta feira, alegrou a todos. Houve quem agradecesse: “Obrigada família pelo dia maravilhoso na fazenda. Esses momentos são únicos em nossas vidas!”
Outro membro disse: “Agradeço de coração ao primo e as primas que sempre nos recebem com carinho e amor. Feliz por este momento!”
Outra: “Amei nosso dia!”
Os pequenos, assim que chegaram à fazenda, começam a correr pelo pátio; uns seguindo galinhas e tô fraco (galinhas de angola, guinés, capotes); outros, que nunca tinham visto aqueles animais a emitirem sons parecidos com o nome que receberam no Brasil, tô-fraco, tô-fraco, abraçavam-se às pernas dos pais e mães, medrosos.
O pátio onde as crianças brincavam e os adultos conversavam animadamente era todo ele cercado com madeira-de-lei, pintadas de preto. Ao contrário dos primeiros dias daquela fazenda, cujo pátio era todo ele cercado por avelós (também conhecido como labirinto), de onde saía um leite que irritava a pele e os olhos.
Enquanto isto, a viúva, mãe, avó, bisavó (em tempos de ser trisavó) olhava ao longe, como a tentar avistar alguém, sem ouvir a balbúrdia que os outros faziam ao seu redor. De vez em quando ela fechava seus olhos. Isso muito rapidamente, como a tentar ver para dentro.
Tudo isto se passou com a matriarca, cabelos brancos pelo tempo, óculos de grau, sentada embaixo da Tamarindeira, cercada por todos. Ela era um silêncio só. Uma vez, só uma vez, disse: “Minha filha, me dê um pouco de água!”
A filha mais nova atendeu a mãe.
Já pela tarde, dois vaqueiros reuniram as vacas paridas no curral ao lado da casa perto de onde a matriarca estava sentada. Uma das filhas disse:
“Minha mãe, olha! Todo este gado é seu. Veja!”
O filho, imediatamente retrucou a irmã: “Prá que dizer isto. Não, não diga nada!”
A mãe parece não ter ouvido nem a filha nem o filho. Piscou os olhos por trás dos óculos e continuou em silêncio.
Uma vagem de tamarindo desprendeu-se do galho e caiu ao lado da matriarca.
*Jornalista
