por Redação do Interior
O ator brasileiro Wagner Moura voltou a chamar atenção ao afirmar que nunca fez escolhas profissionais motivadas apenas por dinheiro ou pelo prestígio de Hollywood. A declaração foi dada em entrevista ao The New York Times e ganhou repercussão internacional ao expor a postura crítica do artista diante da indústria cinematográfica norte-americana e dos estereótipos impostos a atores latino-americanos.
Segundo Moura, após alcançar projeção mundial com o papel de Pablo Escobar na série “Narcos”, passou a receber diversas propostas consideradas financeiramente atraentes, mas que reforçavam um mesmo tipo de personagem. Ele revelou que, em muitos casos, ouviu de agentes e produtores a expectativa de que aceitasse esses papéis apenas por ser um ator brasileiro em Hollywood.
“Eles diziam: ‘ah, você é um ator brasileiro, deveria estar muito feliz com essa oferta’”, lembrou. “E uma parte de mim sentiu uma espécie de prazer em dizer ‘não vou fazer isso’.”
O ator afirmou que essa postura firme tem raízes familiares. Moura atribui sua resistência a concessões ao pai, já falecido, que era sargento da Aeronáutica. Embora não fosse politicamente engajado, segundo ele, havia um forte senso de valores e conduta pessoal.
“Ele não era politicamente ativo, mas havia uma questão de valores, de como você deve se comportar como pessoa”, afirmou Moura. “Não quero me vender como uma bússola moral, mas me mantenho fiel a quem sou e às coisas em que acredito ser certo.”
Mesmo reconhecendo que essa escolha o afastou de um caminho mais convencional em Hollywood, Moura diz não se arrepender. Ao contrário, afirma ter orgulho de preservar sua integridade artística e pessoal, ainda que isso significasse abrir mão de papéis de grande visibilidade.
Nos últimos anos, o ator tem priorizado projetos com forte conteúdo político e social. Um exemplo é o filme “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho. Lançado no Brasil em novembro, o longa foi recebido com grande entusiasmo pelo público.
“Vendemos 1 milhão de ingressos, foi um grande sucesso”, afirmou Moura. “E eu adoro o fato de que este filme está sendo lançado no Brasil em um momento em que finalmente estamos, de certa forma, acertando as contas com a nossa memória.”
Moura também destacou seu desejo de romper com a lógica que restringe atores latino-americanos a papéis estereotipados no cinema internacional.
“Quero interpretar os mesmos personagens que os atores brancos americanos da minha idade estão buscando”, disse. “Quero interpretar personagens chamados Michael que falem como eu falo.”
Caso Hollywood não ofereça esse espaço, o próprio ator pretende criá-lo. Ainda em 2026, Wagner Moura vai dirigir seu primeiro filme em inglês, intitulado Last Night at the Lobster, que retrata o último turno de trabalho em uma rede de restaurantes prestes a fechar as portas.
“É um filme muito político”, explicou. “É um filme natalino anticapitalista.”
O longa contará com a participação dos atores Brian Tyree Henry e Elisabeth Moss e, segundo Moura, mantém a mesma linha crítica que tem orientado suas escolhas recentes.
Ao recusar papéis lucrativos e investir em narrativas que dialogam com memória, política e identidade, Wagner Moura consolida uma trajetória marcada pela independência artística e pela recusa em se submeter às imposições de mercado, mesmo dentro de uma das indústrias mais poderosas do entretenimento mundial.
