UE dá sinal verde a acordo histórico com o Mercosul, mas França promete nova ofensiva no Parlamento Europeu

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por Redação do Interior

Após mais de duas décadas de negociações marcadas por avanços e retrocessos, a União Europeia deu nesta sexta-feira (9), em Bruxelas, o sinal político mais concreto até agora para a concretização do acordo de livre comércio com o Mercosul. Representantes dos 27 Estados-membros aprovaram o pacto, considerado o maior do gênero no mundo, com potencial de integrar um mercado estimado em 722 milhões de consumidores.

A decisão autoriza a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, a assinar formalmente o tratado na próxima semana, durante encontro com líderes sul-americanos no Paraguai. Antes disso, porém, os votos ainda precisam ser confirmados formalmente pelos governos nacionais, uma etapa tratada como protocolar e que deve ser concluída nas próximas horas.

O acordo, iniciado em 1999, permaneceu engavetado por longos períodos, sobretudo devido a resistências ambientais, agrícolas e políticas dentro da Europa. O cenário começou a mudar no fim de 2024, quando as negociações ganharam novo impulso com forte empenho do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que reposicionou o Brasil como interlocutor confiável junto à UE, especialmente em temas ambientais e institucionais.

Na Europa, países com perfil exportador, como Alemanha e Espanha, atuaram decisivamente para destravar o processo. O governo alemão foi um dos primeiros a se manifestar após a decisão em Bruxelas. Berlim classificou o acordo como “um sinal importante no momento atual”, marcado por tensões geopolíticas e reorganização das cadeias globais de comércio. O premiê alemão celebrou publicamente o aval e enviou um recado direto aos opositores internos, defendendo a diversificação de mercados como estratégia para proteger a economia e a indústria do país.

Apesar da maioria favorável, a aprovação escancarou divisões profundas dentro da União Europeia. A França liderou a oposição ao acordo, alegando riscos ao setor agrícola. Enquanto os embaixadores europeus davam o aval em Bruxelas, agricultores franceses voltaram a ocupar Paris com tratores, repetindo cenas recentes e ampliando a crise política enfrentada pelo primeiro-ministro Sébastian Lecornu.

Na política francesa, o tratado se tornou tema altamente sensível — tratado por críticos como um “palavrão”. Partidos de oposição tentam usar a aprovação do acordo para derrubar o governo e aumentar a pressão sobre o presidente Emmanuel Macron. Paris não conseguiu formar uma minoria de bloqueio no Conselho da UE, que exige o apoio de ao menos quatro países representando 35% da população do bloco. A ausência da Itália foi decisiva para o fracasso da estratégia francesa.

Derrotada nessa etapa, a França agora deve transferir a disputa para Estrasburgo, sede do Parlamento Europeu. A expectativa é que a versão final do acordo seja submetida à ratificação dos eurodeputados até abril, etapa indispensável para sua entrada em vigor. Paralelamente, um grupo de parlamentares articula levar o tratado para análise do Tribunal de Justiça da União Europeia, o que poderia atrasar o processo por anos.

Com o sinal verde inicial da UE, o Mercosul articula para a próxima semana a reunião entre Ursula von der Leyen e os presidentes dos países sul-americanos para a assinatura formal do texto negociado há 26 anos. A assinatura é tratada como um marco simbólico após um dos processos mais longos da história do comércio internacional.

Enquanto governos e setores empresariais celebram o avanço do tratado, visto como estratégico para ampliar mercados, reduzir dependências externas e fortalecer cadeias produtivas, agricultores protestam em diferentes países europeus, alertando para riscos à competitividade do setor rural.

O avanço do acordo UE-Mercosul, portanto, marca um ponto de virada histórico, mas também inaugura uma fase de intensa disputa política e institucional, especialmente na França, onde o tratado se entrelaça com uma crise interna que pode redefinir os próximos capítulos da política europeia.

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