Por Redação do Interior
As declarações do governo Donald Trump sobre a Groenlândia ganharam contornos ainda mais graves após Stephen Miller, um dos assessores mais antigos e influentes do republicano, endossar publicamente a possibilidade de anexação da ilha mesmo com o uso da força militar. Em entrevista à CNN, Miller afirmou que os Estados Unidos não devem se limitar por normas diplomáticas tradicionais.
“Somos uma superpotência. E com o presidente Trump, nos comportaremos como tal”, declarou.
Ao ser questionado pelo apresentador Jake Tapper sobre os riscos de violação do direito internacional, o atual chefe de gabinete adjunto da Casa Branca adotou um discurso abertamente confrontacional.
“Vivemos em um mundo onde se pode falar o quanto quiser sobre sutilezas internacionais, mas o mundo real é governado pela força, é governado pelo poder. Essas são as leis de ferro do mundo”, disse.
Para analistas, a fala explicita uma ruptura com os princípios da ordem internacional do pós-Segunda Guerra Mundial, baseada na soberania dos Estados e na proibição do uso da força.
As declarações provocaram reações imediatas das autoridades diretamente envolvidas. Em publicação no Facebook, o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, foi categórico ao rejeitar qualquer pretensão americana:
“Parem com a pressão. Parem com as insinuações. Parem com as fantasias sobre anexação”, escreveu.
A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, também reagiu com dureza. Em entrevista à emissora TV2, afirmou que um ataque dos Estados Unidos a um país aliado teria efeitos devastadores.
“Se os Estados Unidos optarem por atacar militarmente outro país da OTAN, tudo para — inclusive a própria OTAN e, portanto, a segurança construída desde o fim da Segunda Guerra Mundial”, disse.
Ao mesmo tempo, reconheceu que o discurso de Trump deve ser levado a sério: “Não se pode ignorar quando o presidente dos EUA diz que quer a Groenlândia”.
O interesse reiterado de Donald Trump pela ilha se apoia em fatores estratégicos e econômicos concretos. A localização da Groenlândia no Ártico, entre a América do Norte, a Europa e rotas marítimas cada vez mais relevantes com o degelo polar, confere ao território alto valor militar e geopolítico, inclusive para monitoramento de atividades russas e chinesas na região.
Além disso, a riqueza de recursos naturais transforma a Groenlândia em uma verdadeira joia estratégica. O território abriga reservas expressivas de minerais críticos, como lítio, níquel, cobalto e cobre, além de elementos de terras raras, insumos essenciais para a indústria de alta tecnologia, transição energética, produção de baterias, semicondutores e equipamentos militares. Esses recursos são hoje objeto de intensa disputa global, especialmente diante da forte dependência ocidental da cadeia produtiva controlada pela China.
Esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que a Groenlândia ocupa posição central no discurso do republicano. Ainda assim, qualquer tentativa de anexação forçada violaria a Carta das Nações Unidas, colocaria os Estados Unidos em confronto direto com a Dinamarca e abriria uma crise sem precedentes dentro da OTAN, com potencial de desestabilizar a arquitetura de segurança internacional construída ao longo de décadas. Algo que, a julgar pelas declarações das autoridades americanas, não tem nenhuma importância.
