Por Redação do Interior
A declaração do deputado Nicolás Maduro Guerra, filho do ex-presidente venezuelano Nicolás Maduro, marcou a instalação da nova Assembleia Nacional da Venezuela, em 5 de janeiro de 2026, e sintetizou a estratégia política do chavismo em meio à mais grave crise institucional do país nas últimas décadas: reafirmar continuidade, controle e enfrentamento externo, apesar do abalo provocado pela captura de Maduro pelos Estados Unidos.
Durante o discurso no Parlamento, Maduro Guerra afirmou que “a pátria está em boas mãos” e recorreu a um dos pilares centrais da retórica chavista ao atacar Washington. Segundo ele, “se eles [os Estados Unidos] são Monroe, em referência à Doutrina Monroe, de ‘América para os americanos’, os venezuelanos são Simón Bolívar”, evocando o libertador da América Latina e herói nacional como símbolo de resistência ao intervencionismo estrangeiro.
A fala ocorreu em um contexto político já amplamente favorável ao governo. Em um pleito marcado pela ausência de eleitores e pelo boicote de parte significativa da oposição, os apoiadores de Nicolás Maduro conquistaram, no domingo (25), 23 dos 24 governos estaduais da Venezuela, além de uma maioria contundente na Assembleia Nacional. O resultado consolidou o domínio do chavismo sobre os principais níveis do poder político e administrativo do país.
No Legislativo, esse controle se materializou na reeleição de Jorge Rodríguez, irmão da presidente interina Delcy Rodríguez, para a presidência da Assembleia Nacional. A decisão fortalece a concentração de poder no núcleo político ligado a Maduro, agora responsável simultaneamente pelo comando do Executivo interino e do Parlamento.
Os números explicam a facilidade da articulação governista. O Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), legenda de Maduro e de seu filho, lidera a coalizão Gran Polo Patriótico, que detém 256 das 285 cadeiras da Assembleia Nacional. A oposição, fragmentada em diferentes siglas, ocupa apenas 29 assentos, sem capacidade de influenciar votações relevantes ou impor limites efetivos à agenda governista.
Essa supermaioria garante ao chavismo controle absoluto da Mesa Diretora, aprovação de leis, sustentação de decretos do Executivo e respaldo jurídico à presidência interina de Delcy Rodríguez. Para analistas, o cenário aprofunda a crise de legitimidade institucional, já que o predomínio eleitoral ocorreu em um ambiente de baixa participação popular e forte contestação sobre as condições de competitividade do pleito.
Ao contrapor a Doutrina Monroe à figura de Simón Bolívar, Maduro Guerra reforçou uma narrativa histórica usada há anos pelo chavismo para mobilizar sua base e justificar o fechamento político interno. O discurso também funcionou como recado às Forças Armadas e aos aliados de que não haverá ruptura interna nem redistribuição de poder, apesar da pressão internacional.
Na prática, a crise aberta pela captura de Nicolás Maduro não resultou em abertura política, mas em um reposicionamento defensivo do chavismo, sustentado por vitórias eleitorais contestadas, supermaioria legislativa e concentração de poder em um círculo político e familiar restrito. Para a população venezuelana, permanecem a instabilidade institucional, o isolamento diplomático e a incerteza sobre qualquer transição democrática no curto prazo.
