Por Redação do Interior com Rodrigo Naredo / El País
Após passar 21 anos em uma prisão israelense, o palestino Basim Khandagji, de 42 anos, emerge no cenário internacional como uma das vozes mais relevantes da literatura árabe contemporânea. Recém-libertado em outubro de 2024, como parte de uma troca de prisioneiros ligada às negociações sobre Gaza, o escritor publicou em espanhol o romance Uma Máscara da Cor do Céu, escrito clandestinamente durante o cárcere e vencedor do Prêmio Internacional de Ficção Árabe, o mais importante da literatura árabe.
Khandagji descobriu que havia ganhado o prêmio de forma brutal. Segundo ele, guardas da prisão o agrediram e destruíram seus pertences, afirmando que ele havia “criado um grande problema lá fora”. “Foi assim que soube que tinha vencido”, relatou. A obra, escrita em segredo e contrabandeada para fora da prisão, foi publicada na Espanha pela editora Hoja de Lata.
No romance, o autor narra a história de Nur, um jovem palestino de aparência asquenazita que, ao assumir uma identidade israelense falsa, passa a circular livremente por Israel. A trama expõe o conflito interno provocado pela personificação do ocupante e a ameaça de apagamento da própria identidade — um espelhamento direto da experiência do autor. “Quero te conhecer para não me tornar você. Quero te usar para me libertar de você”, diz o protagonista em um dos trechos centrais do livro.
Em entrevistas após a libertação, Khandagji afirma que deixou de acreditar no nacionalismo tradicional e na resistência militarizada. Para ele, a literatura tornou-se uma forma de resistência ao colonialismo israelense. “O que querem é apagar nossa humanidade. Escrever é um ato que afirma minha existência”, declarou. Durante a prisão, ele chegou a se formar e se especializar em estudos israelenses, que define como um “ato de transgressão contra o opressor”.
O escritor foi condenado por supostamente facilitar um ataque em Tel Aviv que deixou três mortos — acusação que não nega, embora organizações internacionais, incluindo a ONU, tenham classificado o julgamento como ilegítimo. Ainda assim, sua trajetória literária ganhou projeção internacional e encontrou forte acolhida na Espanha, país que ele menciona como um dos poucos a reconhecer plenamente a humanidade do povo palestino.
Impedido de retornar à Cisjordânia, Khandagji vive atualmente no exílio, no Egito, e avalia possíveis destinos futuros, entre eles a Espanha. Apesar da liberdade recente, carrega as marcas do encarceramento e da separação da família. “Não posso abraçar minha mãe. Isso também é uma forma de vingança”, afirma.
Sua próxima obra já está em gestação e será baseada na história de um companheiro de prisão. Para Khandagji, a escrita segue como arma e abrigo: uma forma de enfrentar o apagamento cultural e afirmar, diante do mundo, a existência palestina.
Comentário e análise do Interior
A trajetória de Basim Khandagji escancara uma dimensão frequentemente invisibilizada do conflito israelo-palestino: a disputa simbólica e cultural travada dentro e fora das prisões. Ao transformar o encarceramento em espaço de produção literária, Khandagji subverte a lógica do sistema que buscava silenciá-lo. Sua obra e suas declarações deslocam o debate da resistência armada para o campo da linguagem, da memória e da identidade — um movimento que dialoga com correntes contemporâneas da literatura palestina e com a crítica internacional ao colonialismo e ao apartheid.
O impacto de Uma Máscara da Cor do Céu vai além do reconhecimento literário. O romance evidencia como a prisão funciona como laboratório de controle social, tema recorrente em análises de direitos humanos, e como a escrita se torna um gesto político radical: existir, narrar e reivindicar humanidade. Ao mesmo tempo, suas posições — como a crítica à solução de dois Estados e ao papel dos EUA — reforçam o caráter controverso e incômodo de sua voz, o que ajuda a explicar a reação hostil das autoridades israelenses diante do prêmio.
