Por Redação do Interior
Conhecida pelas praias de águas cristalinas e pelo turismo de alto padrão, São Miguel dos Milagres, no Litoral Norte de Alagoas, passou a integrar o mapa de destinos turísticos citados em uma reportagem especial da BBC News Brasil sobre a expansão do crime organizado no Nordeste. O município alagoano é mencionado ao lado de praias como Porto de Galinhas (PE), Pipa (RN) e Jericoacoara (CE), onde facções criminosas se consolidaram territorialmente e passaram a explorar a economia local.
A reportagem, assinada pelo jornalista Vitor Tavares, aponta que esses territórios reúnem características que favorecem a atuação das facções, que passaram a se aproveitar da dinâmica do turismo para ampliar um negócio lucrativo e estratégico. Entre os fatores destacados estão a alta circulação de dinheiro, a presença constante de turistas com maior poder aquisitivo, o consumo recreativo de drogas e a estrutura de cidades pequenas, com baixa presença do Estado e limitações na atuação das forças de segurança.
São Miguel dos Milagres no radar
No caso de São Miguel dos Milagres, a BBC ressalta que, apesar do perfil mais reservado e do turismo voltado a pousadas exclusivas, há relatos da atuação de grupos criminosos na região. O município aparece como exemplo de que o avanço das facções não se restringe a destinos de grande porte, mas alcança também praias menores, com alto valor simbólico e econômico.
Especialistas ouvidos pela reportagem explicam que esses locais se tornam atrativos por concentrarem renda, circulação constante de visitantes e pouca estrutura estatal, criando um ambiente favorável para a infiltração do poder paralelo sem grande visibilidade.
Porto de Galinhas: domínio territorial e controle social
Em Porto de Galinhas, no litoral sul de Pernambuco, a facção conhecida como Trem Bala, também chamada de Comando do Litoral Sul, exerce controle sobre comunidades próximas à área turística. Moradores relatam a imposição de regras próprias, a proibição de acionar a polícia e a atuação de tribunais do crime, com registros de torturas, execuções e cemitérios clandestinos.
“São como filiais do negócio de drogas. O descontrole desde a fronteira, passando pelos grupos de Rio e São Paulo, deságua aqui”, resume o promotor de Justiça Eduardo Leal dos Santos, de Ipojuca, cidade do Grande Recife onde está localizada a praia de Porto de Galinhas.
Segundo inquéritos citados pela BBC, apenas um traficante chegou a movimentar cerca de R$ 10 milhões por ano com a venda de drogas na região. A redução de homicídios observada nos últimos anos, segundo investigadores, está associada à ausência de disputa entre facções, e não à melhoria efetiva da segurança.
Pipa: organização empresarial do tráfico
Na praia de Pipa, no Rio Grande do Norte, o controle é atribuído ao Sindicato do Crime, facção surgida dentro do sistema prisional potiguar. A atuação é descrita como altamente organizada, com divisão de funções, escalas de trabalho e códigos rígidos de conduta.
A reportagem revela que o tráfico chegou a funcionar de forma tão explícita que havia uma espécie de “lojinha” de drogas no centro da vila. Episódios como o triplo homicídio registrado em dezembro, em plena avenida principal, escancararam disputas internas e tentativas de entrada de grupos rivais.
“Só falta assinar a carteira, são organizados demais”, diz uma fonte da Polícia Civil do Estado à BBC News Brasil.
Jericoacoara: turismo de massa e violência velada
Em Jericoacoara, no Ceará, a presença do Comando Vermelho domina a vila. O assassinato de um turista de 16 anos, em dezembro de 2024, após ele ter sido confundido com integrante de facção rival, marcou um divisor de águas e trouxe repercussão nacional ao caso.
Moradores relatam que, embora existam acordos informais para evitar crimes contra turistas, situações de intimidação e agressões vinham se tornando mais frequentes, acompanhando a mudança no perfil do turismo local, hoje mais associado a festas, consumo de drogas e entretenimento de massa.
“Por ser a praia mais famosa do Ceará, com muitos turistas que podem pagar preços altos das drogas, Jeri acaba despertando muito a atenção das facções que querem o controle territorial da praia”, disse Artur Pires, pesquisador do laboratório de violência da Universidade Federal do Ceará
Uma tranquilidade aparente
A BBC News Brasil destaca que, apesar da aparência de tranquilidade mantida para quem visita esses destinos, a população local convive com ameaças, silenciamento e regras impostas pelo crime organizado. Em muitos casos, conflitos cotidianos passam a ser mediadas pelas facções, que exercem controle social sobre os territórios.
Pesquisadores apontam que o avanço do crime organizado pelo litoral nordestino está ligado à desigualdade social, à ausência de políticas públicas estruturantes e à interiorização das facções, antes concentradas nas grandes capitais.
Por trás da imagem de paraísos turísticos divulgada internacionalmente, a reportagem revela uma realidade marcada pelo medo e pela convivência forçada com o poder paralelo — realidade que agora inclui também São Miguel dos Milagres, em Alagoas.
Fonte: BBC News Brasil
