A Cultura e Nós

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Guilherme Moraes

Que os regimes fascistas têm na cultura uma inimiga mortal não é segredo para ninguém, ao longo da história, fartos são os exemplos que mostram como governos autoritários trataram e tratam os artistas e a produção cultural de seu próprio país.

Desse modo, e como consequência, é de se esperar que ela exerça um papel de destaque na luta contra regimes opressores. Na semana passada, relembramos dois casos simbólicos em que a música virou símbolo da derrocada do fascismo: o primeiro, uma multidão em Lisboa cantando Grândola, Vila Morena, composta pelo músico Zeca Afonso e utilizada através do rádio pelos militares em 25 de abril de 1974 para dar início ao movimento que derrubaria o regime salazarista. O segundo, este na Itália, outras multidões cantando a Bella Ciao, hino dos partigiani, os membros da Resistência Italiana, responsáveis por depor, no dia 25 de abril de 1945, o regime fascista de Mussolini.

Se a cultura atua na preservação da história de uma luta coletiva, fazendo-nos não esquecermos jamais dos homens e mulheres que deram suas vidas em prol da Liberdade, ela também pode agir na manutenção da memória de eventos importantes para um determinado local, seja cidade, estado ou país. Nesse sentido, cabe-se perguntar o que os governos que rejeitam (corretamente) o modo fascista de exercer o poder estão fazendo para salvaguardar, preservar e desenvolver a cultura, portanto, a identidade cultural da região que administram.

Recentemente uma iniciativa realizada em Fortaleza indica uma boa maneira de encarar essa questão. Sábado passado, 26 de abril, a Academia Cearense de Letras inaugurou uma réplica do Café Java, histórico espaço da cidade, berço do Realismo e Simbolismo cearense. Ações como estas não servem apenas para manter, sobretudo de maneira espacial, a memória cultural e intelectual de um determinado local, servem também para formar uma nova geração de escritores, artistas e intelectuais que tenham orgulho de pertencer a uma tradição de sua própria terra.

Poderíamos fazer o mesmo em Alagoas? Lembranças a serem preservadas não faltam. Se seguíssemos o exemplo do Ceará, faríamos o mesmo com o Café Central, famoso estabelecimento localizado no cruzamento da rua do Livramento com a rua do Comércio e que serviu como ponto de encontro de grandes nomes da intelectualidade brasileira como Graciliano Ramos, Aurélio Buarque de Holanda, Rachel de Queiroz, José Lins do Rêgo, entre outros.

Preservar a produção cultural de um lugar é manter vivas as memórias das lutas, dos sacrifícios e das conquistas. É manter vivas as tradições, as singularidades e identidades de um povo. Preservar a cultura é preservar aquilo que faz de nós justamente nós mesmos, e não um outro qualquer. Ao mesmo tempo, é a possibilidade de fazer-nos avançar, conhecendo o caminho que nossos antepassados percorreram, projetando a estrada que devemos tomar, os cruzamentos que devemos evitar.

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