Por Redação do Interior
O crime brutal registrado no último sábado (20), no Village Campestre, em Maceió — onde uma mulher foi encontrada morta dentro de casa e seu filho com deficiência estava ao lado do corpo — insere-se em um cenário mais amplo de violência de gênero que persiste em Alagoas e em todo o Brasil. A Polícia Militar já apontou o marido da vítima como principal suspeito, que, após o homicídio, teria confessado o crime a uma ex-companheira antes de fugir, em um gesto que indica a dimensão pessoal e próxima da violência de gênero que se traduz em feminicídios.
Embora dados nacionais mostrem uma redução geral dos casos de violência letal contra mulheres em 2024, com 1.450 homicídios definidos como femicídios no país — cerca de 5% a menos que no ano anterior — essa queda ainda não se traduz uniformemente nas realidades locais, sobretudo em contextos de vulnerabilidade social e desigualdade.
Em Alagoas, o painel de dados do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania indica que o estado manteve uma taxa de feminicídio de 1,3 por 100 mil mulheres em 2024 — número que, apesar de representar uma leve redução nos últimos anos, permanece entre os mais preocupantes do Nordeste.
Boletim Epidemiológico de Violência contra Mulheres em Alagoas revela que, entre 2020 e 2024, foram registrados 371 homicídios de meninas e mulheres no estado, dos quais 131 foram classificados como feminicídios, o que representa cerca de 35% dos casos de homicídios femininos no período analisado. A taxa de mortalidade por feminicídio caiu de 2,1 para 1,3 por 100 mil mulheres nesse intervalo, mas isso ainda reflete um padrão persistente de violência letal.
A violência cotidiana e não letal também permanece alta. Em 2025, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) de Alagoas registrou uma média de 20 ocorrências mensais de violência doméstica contra mulheres, muitas delas envolvendo agressões graves e risco de morte.
Além disso, o sistema de denúncia Ligue 180 registrou um aumento de quase 30% nas chamadas em 2024, com a maior parte das vítimas sendo mulheres negras e os agressores, em sua maioria, parceiros íntimos ou ex-companheiros.
Especialistas em segurança pública e direitos humanos destacam que os números refletem não apenas uma violência estrutural profundamente enraizada, mas também problemas no acesso a mecanismos de proteção eficazes, subnotificação de casos e barreiras que impedem que mulheres em situação de risco procurem ajuda antes que a escalada de violência resulte em morte.
O caso do Village Campestre, em que o suspeito teria procurado outra mulher para relatar o crime antes de desaparecer, ilustra o caráter íntimo e familiar de grande parte dos feminicídios no Brasil — onde companheiros ou ex-companheiros figuram como principais autores em uma parcela significativa dos casos. O episódio aponta para a urgência de políticas públicas voltadas à proteção ativa de mulheres em situação de risco e à interruptividade da escalada de violência doméstica.
Enquanto as autoridades seguem as buscas pelo suspeito e a investigação policial avança, o caso acende um alerta para a sociedade e o poder público: reduzir efetivamente o feminicídio exige não apenas respostas punitivas, mas uma rede integrada de prevenção, acolhimento e transformação cultural que ataque as raízes da violência de gênero em todas as suas formas.
