Por Redação do Interior
Gestantes de Arapiraca têm sido obrigadas a deixar o município para conseguir atendimento obstétrico no SUS, em um cenário que escancara a incapacidade atual da rede de saúde local de absorver a demanda por partos. A falta de leitos disponíveis tem levado mulheres — algumas já em trabalho de parto — a se deslocarem para outros municípios do Agreste, enfrentando estradas e riscos que deveriam ser evitáveis dentro de um sistema público organizado.
O problema ganhou visibilidade após relatos de gestantes reguladas para cidades vizinhas por inexistência de vagas em Arapiraca. Na prática, o que ocorre é a chamada “peregrinação de gestantes”, situação amplamente criticada por especialistas em saúde pública por aumentar riscos maternos e neonatais, sobretudo em casos de urgência.
Fechamento de maternidade agravou o cenário
A crise atual não surgiu de forma repentina. Ela se intensificou após o fechamento da maternidade do Hospital Chama, que funcionava como referência regional para partos e atendia não apenas Arapiraca, mas municípios vizinhos. A desativação da unidade reduziu drasticamente a oferta de leitos obstétricos no município, sem que houvesse uma substituição estrutural imediata.
Desde então, o Hospital Regional Nossa Senhora do Bom Conselho passou a concentrar grande parte da demanda, operando sob pressão constante. Quando a capacidade é ultrapassada, a solução tem sido a regulação para outros municípios, o que transfere o problema — mas não o resolve.
O que diz a prefeitura — e o que a resposta revela
Em nota, a Prefeitura de Arapiraca afirma que adotou medidas emergenciais, como a contratação temporária de leitos no Hospital Regional, e que, quando não há vagas, as gestantes são encaminhadas para outras cidades com transporte garantido e regulação prévia.
A resposta, no entanto, não contesta o ponto central da crise: a rede de saúde do município não possui hoje capacidade suficiente para atender todas as gestantes que precisam de assistência obstétrica. Ao admitir o deslocamento frequente para outras cidades como parte da rotina, a gestão reconhece, ainda que indiretamente, a limitação estrutural do sistema local.Ou seja, o transporte oferecido funciona como paliativo diante da ausência de leitos — e não como solução definitiva.
Falha estrutural e descumprimento de diretrizes do SUS
A situação contraria princípios básicos da Rede Cegonha, política do SUS criada justamente para evitar esse tipo de cenário. A diretriz prevê que a gestante tenha vaga definida para o parto, com atendimento próximo ao local de residência e sem deslocamentos prolongados.
Quando mulheres grávidas precisam percorrer dezenas de quilômetros para dar à luz, o problema deixa de ser apenas logístico e passa a ser institucional. Trata-se de uma falha de planejamento e de coordenação entre município e estado, responsável pela oferta de serviços de média e alta complexidade.
Risco naturalizado
Enquanto o debate se concentra em medidas emergenciais, o risco acaba sendo naturalizado. Viagens em estradas, atrasos no atendimento e incertezas no momento do parto passam a fazer parte da experiência de gestar em Arapiraca — algo incompatível com o direito constitucional à saúde.
Sem a recomposição efetiva dos leitos obstétricos e sem uma solução estrutural para substituir a maternidade fechada, o município segue convivendo com um colapso silencioso, em que mães e bebês pagam o preço da insuficiência do sistema.
