Estudo da UnB aponta que maternidade reduz salário das mulheres

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Por Redação do Interior

Uma tese de doutorado desenvolvida na Universidade de Brasília (UnB) apresenta evidências de que a maternidade continua tendo impacto direto e duradouro sobre a renda das mulheres no Brasil. De acordo com o estudo conduzido pela economista Luiza Rodrigues e divulgado em outubro de 2025, ter um filho reduz, em média, 4% do salário feminino, mesmo quando se controlam fatores como escolaridade, origem social e ambiente familiar.

O trabalho se destaca pela metodologia inédita no país. A pesquisadora analisou dezenas de milhares de dados de gêmeas brasileiras nascidas entre 1986 e 2001, acompanhando informações de emprego formal e renda. Ao comparar mulheres com trajetórias de vida muito semelhantes — inclusive genética e contexto familiar —, o estudo conseguiu isolar o que Rodrigues chama de ‘penalidade pura da maternidade’.“Comparar gêmeas permite separar o que é penalidade associada a escolhas, valores ou visão de mundo da penalidade que ocorre simplesmente por ter um filho”, explica a pesquisadora.

Segundo ela, trata-se de um efeito que aparece em todas as classes sociais e em todos os grupos raciais, não podendo ser explicado apenas por nível de escolaridade ou ocupação.

Quanto custa ser mãe

Para traduzir o impacto em termos concretos, Rodrigues utiliza um exemplo hipotético: uma mulher que, antes de ter filhos, receberia uma proposta de emprego de R$ 3.000 mensais. Após a maternidade, as ofertas tenderiam a ser cerca de R$ 120 menores por mês. Ao longo de um ano, considerando salário, 13º e adicional de férias, isso representa aproximadamente R$ 1.600 a menos na renda anual.

Os efeitos se acumulam com o tempo. De acordo com as estimativas do estudo, em dez anos, essa diferença salarial pode resultar em uma perda de cerca de R$ 22 mil, considerando a aplicação mensal do valor em uma poupança com rendimento médio de 0,5% ao mês. O montante equivale a mais da metade do salário anual dessa trabalhadora.

Para a pesquisadora, os números evidenciam que a desigualdade não é abstrata. “É uma desigualdade concreta, que afeta milhões de mulheres”, afirma. Segundo Rodrigues, compreender como e onde essas diferenças se manifestam é fundamental para o desenho de políticas públicas mais eficazes e justas.

Penalidade da maternidade é estrutural

O estudo reforça um diagnóstico já presente na literatura internacional, mas com estimativas mais refinadas. “Mães ganham menos do que mulheres sem filhos em praticamente todos os países”, aponta Rodrigues. Para ela, a penalidade da maternidade é um dos componentes centrais da diferença salarial entre homens e mulheres.

Embora o impacto identificado no Brasil seja menor do que o apontado por pesquisas anteriores, a pesquisadora ressalta que isso não significa que o problema seja irrelevante. Pelo contrário: a redução encontrada reflete justamente o controle rigoroso de fatores não observáveis, frequentemente ignorados em análises tradicionais.

Metodologia inédita e contribuição científica

A tese reúne três artigos e apresenta a TwinsBR, uma base com 378.399 múltiplos brasileiros, considerada a maior do mundo nesse formato. Os dados, obtidos a partir de registros administrativos do governo, permitem análises longitudinais do mercado de trabalho entre 2019 e 2022.

Além de investigar a penalidade da maternidade, o trabalho também analisa a diferença salarial entre homens e mulheres a partir de gêmeos de sexos opostos, mostrando que, quando indivíduos são verdadeiramente comparáveis em características observáveis e não observáveis, a diferença salarial tende a desaparecer.

O conjunto de resultados é indicativo da importância de metodologias mais sofisticadas para compreender desigualdades persistentes no mercado de trabalho brasileiro. Ao mesmo tempo, o estudo indica que políticas de apoio à parentalidade, divisão mais equilibrada do cuidado e revisão de práticas no mundo do trabalho seguem sendo fundamentais para reduzir distorções que penalizam as mulheres ao longo da vida profissional.

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