Por Redação do Interior
Um novo levantamento internacional reforça um diagnóstico histórico sobre a estrutura social brasileira: o país permanece entre os mais desiguais do planeta. Segundo dados do World Inequality Lab (WIL), grupo de pesquisa coordenado pelo economista francês Thomas Piketty, o Brasil ocupa a 5ª posição no ranking global de desigualdade de renda, entre mais de 200 países analisados.
O estudo integra o Relatório da Desigualdade Global, produzido por uma rede internacional de pesquisadores da Paris School of Economics e de outras instituições. A metodologia cruza informações de registros fiscais, pesquisas domiciliares e contas nacionais, buscando captar com maior precisão a concentração de renda no topo da pirâmide — algo que indicadores tradicionais, como o índice de Gini, muitas vezes subestimam.
Concentração extrema no topo
Os números revelam uma assimetria profunda. De acordo com o relatório, os 10% mais ricos do Brasil concentram cerca de 59% de toda a renda nacional, enquanto os 50% mais pobres ficam com pouco mais de 9%. Na dimensão da riqueza — que inclui patrimônio, imóveis e ativos financeiros — a concentração é ainda mais elevada: os 10% do topo detêm aproximadamente 70% de toda a riqueza do país.
Na prática, isso significa que a maior parte do crescimento econômico beneficia uma parcela restrita da população, enquanto metade dos brasileiros divide uma fração mínima do que é produzido. O Brasil aparece atrás apenas de países como África do Sul, Colômbia, México e Chile, todos marcados por históricos de desigualdade estrutural e heranças coloniais profundas.
Desigualdade persistente, apesar de avanços pontuais
O estudo chama atenção para o fato de que, embora o Brasil tenha registrado reduções pontuais da desigualdade em determinados períodos, especialmente com políticas de transferência de renda e valorização do salário mínimo, essas melhorias não foram suficientes para alterar de forma estrutural o padrão de concentração.
A desigualdade brasileira é descrita como resiliente, atravessando diferentes ciclos econômicos e governos. Crises econômicas, como a recessão de 2015–2016 e os impactos da pandemia, agravaram esse quadro ao afetar desproporcionalmente os mais pobres, enquanto os estratos mais ricos conseguiram preservar ou até ampliar seu patrimônio.
Sistema tributário no centro do debate
Um dos pontos centrais destacados pelo relatório — e recorrente na obra de Piketty — é o papel do sistema tributário. O Brasil é frequentemente classificado como um país de tributação regressiva, no qual o peso dos impostos recai mais fortemente sobre o consumo e a renda do trabalho do que sobre o patrimônio e o capital.
Na comparação internacional, o país tributa pouco heranças, grandes fortunas e lucros, o que contribui para a reprodução intergeracional da desigualdade. Para os pesquisadores, sem reformas que tornem a tributação mais progressiva, políticas sociais tendem a atuar apenas como paliativos, incapazes de enfrentar a raiz do problema.
Impactos sociais e políticos
A desigualdade extrema tem efeitos que vão além da economia. Ela influencia o acesso à educação, à saúde, à moradia e ao mercado de trabalho, além de afetar a própria qualidade da democracia. Estudos internacionais associam altos níveis de desigualdade a maior instabilidade política, menor confiança nas instituições e dificuldades para implementar políticas públicas de longo prazo.
No caso brasileiro, o diagnóstico do World Inequality Lab apresenta um dilema recorrente: o país não é pobre, mas profundamente desigual. A persistência desse quadro coloca pressão sobre o debate público e sobre a agenda econômica, especialmente em um contexto de discussão sobre reforma tributária, gastos sociais e responsabilidade fiscal.
Um retrato incômodo
Ao posicionar o Brasil entre os cinco países mais desiguais do mundo, o estudo da equipe de Thomas Piketty não traz exatamente uma novidade, mas oferece dados robustos e comparáveis internacionalmente que mostram um retrato incômodo. A desigualdade, longe de ser um efeito colateral do desenvolvimento, permanece como um traço estrutural do modelo econômico e social brasileiro — e um dos principais desafios para o futuro do país.
