Arquivo 468: DOJ apaga e republica foto de Trump nos documentos de Epstein

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Por Redação do Interior Com informações de Iker Seisdedos, do jornal El País.

A desclassificação mais recente dos documentos ligados a Jeffrey Epstein abriu uma nova frente de desgaste para o governo Donald Trump nos Estados Unidos. Entre quase 4.000 imagens divulgadas pelo Departamento de Justiça (DOJ), uma em especial — o chamado arquivo 468 — tornou-se símbolo das contradições do processo: uma fotografia em que Trump aparece cercado por mulheres de biquíni, guardada em uma gaveta da mesa de Epstein, ao lado de imagens do financista com autoridades e figuras públicas.

A controvérsia começou quando o arquivo desapareceu, sem aviso, do microsite oficial do DOJ poucas horas após a divulgação. A retirada levantou suspeitas de interferência política, sobretudo porque Trump é praticamente ausente do restante do material desclassificado, apesar de sua relação social conhecida com Epstein no passado. Diante da reação imediata de democratas e da imprensa, o governo acabou republicando o documento no domingo, após admitir que ele havia sido removido.

Um sumiço que virou crise

O desaparecimento do arquivo foi apontado publicamente pelos democratas do Comitê de Supervisão da Câmara, que questionaram se o governo estaria escondendo informações sensíveis. A cobrança foi direcionada à procuradora-geral Pam Bondi, responsável pela divulgação, exigida por lei após meses de resistência do Executivo.

Em entrevista à NBC, o procurador-geral adjunto Todd Blanche confirmou que 16 arquivos foram removidos temporariamente, incluindo o 468. Segundo ele, a exclusão ocorreu após reclamações de grupos de defesa das vítimas, que alertaram para a possível exposição de sobreviventes dos abusos cometidos por Epstein. “Qualquer pessoa pode nos pedir a remoção de um documento. Nós o faremos e investigaremos”, afirmou.

A explicação, porém, não dissipou as dúvidas. Ao ser questionado se alguma das mulheres que aparecem com Trump na foto seria vítima de Epstein, Blanche se contradisse: negou ter essa informação, mas insistiu que, na dúvida, o material deveria ser retirado para análise. A promessa foi de que a imagem seria restaurada — como foi — com eventuais censuras, caso se confirmasse a presença de vítimas.

Censura seletiva?

O episódio expôs um paradoxo central da atual desclassificação. Fotografias do ex-presidente Bill Clinton divulgadas no mesmo lote mostram mulheres com os rostos borrados em situações comprometedoras, como em uma jacuzzi. Setores republicanos interpretaram a censura como indício de que Clinton estaria acompanhado de vítimas ou menores de idade.

Aplicada a mesma lógica, a retirada temporária da foto de Trump levanta a pergunta inevitável: a imagem exigia censura para proteger vítimas, por quê? E, se não havia vítimas na foto, por que o arquivo foi removido do ar?

A Lei de Transparência Epstein, aprovada quase por unanimidade no Congresso, determina a proteção da privacidade das vítimas e a censura de pornografia infantil ou material gráfico de abuso. Ainda assim, o amplo volume de tarjas pretas e exclusões tem sido criticado por sobreviventes, juristas e parlamentares, que veem na prática um risco de esvaziamento do próprio objetivo da lei: lançar luz sobre as conexões de Epstein com figuras poderosas.

Transparência sob suspeita

Desde a morte de Epstein, em 2019 — classificada oficialmente como suicídio enquanto ele aguardava julgamento por tráfico sexual infantil —, o caso se tornou uma obsessão da opinião pública americana. A promessa de transparência feita pelo governo Trump esbarra agora em decisões erráticas, como a do arquivo 468, que alimentam suspeitas de seletividade política.

Ao apagar e republicar a imagem, o Departamento de Justiça conseguiu algo que tentava evitar: transformar um detalhe quase invisível em símbolo de opacidade institucional. Se a censura é necessária para proteger vítimas, o critério precisa ser claro e consistente. Caso contrário, cada remoção — ainda que temporária — reforça a percepção de que, no escândalo Epstein, as respostas seguem sendo adiadas.

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