Lula alerta para “catástrofe humanitária” em caso de intervenção armada na Venezuela e cobra respeito ao direito internacional

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Por Redação do Interior

Ao abrir a 67ª Reunião de Chefes de Estado do Mercosul e Estados Associados, neste sábado (20), em Foz do Iguaçu (PR), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um dos discursos mais contundentes de política externa de seu terceiro mandato. Em meio à escalada de tensão entre Estados Unidos e Venezuela, Lula afirmou que uma eventual intervenção armada no país vizinho representaria uma “catástrofe humanitária” e um precedente perigoso para o sistema internacional.

Sem citar diretamente Washington, o presidente brasileiro criticou a presença militar de uma potência extrarregional na América do Sul, evocando o trauma histórico da Guerra das Malvinas, em 1982. Para Lula, o continente volta a ser “assombrado” por ameaças à soberania nacional que se manifestam não apenas pela guerra, mas também pelo avanço de forças antidemocráticas e do crime organizado transnacional.

“O limite do direito internacional está sendo testado”, afirmou o presidente, ao defender que a integração regional não fragiliza a soberania dos países, mas, ao contrário, funciona como mecanismo de proteção diante de riscos externos e internos.

Defesa da democracia e recado interno

O discurso também teve forte dimensão doméstica. Lula destacou que a democracia brasileira “sobreviveu ao mais duro atentado desde o fim da ditadura”, em referência aos ataques golpistas de 8 de janeiro de 2023. Segundo ele, a responsabilização dos envolvidos marcou, pela primeira vez, um acerto de contas do país com seu passado autoritário.

A fala funciona como um recado direto a setores que relativizam o episódio e, ao mesmo tempo, como um contraponto à retórica de instabilidade institucional usada por lideranças extremistas na região. Lula associou o enfraquecimento das instituições ao fortalecimento do crime organizado, reforçando que segurança pública é um dever do Estado “independentemente de ideologia”.

Segurança regional e combate ao crime organizado

Nesse contexto, o presidente destacou iniciativas do Mercosul para enfrentar redes criminosas, como acordos contra o tráfico, estratégias conjuntas de combate ao crime organizado transnacional, recuperação de ativos ilícitos e regulação do ambiente digital. Lula anunciou ainda a intenção do Brasil de propor, no âmbito do Consenso de Brasília, uma reunião de ministros da Justiça e da Segurança Pública da América do Sul para ampliar a cooperação regional.

A agenda inclui também a proteção de mulheres vítimas de violência. Lula lembrou que a América Latina lidera o ranking global de feminicídios e anunciou o envio ao Congresso de um acordo que garante a extensão de medidas protetivas entre países do bloco. Ele propôs ainda a criação de um pacto regional pelo fim do feminicídio.

Mercosul, comércio e o impasse com a União Europeia

Na área econômica, Lula adotou tom crítico ao tratar do acordo entre Mercosul e União Europeia, cuja negociação se arrasta há 26 anos. Segundo o presidente, o bloco sul-americano fez concessões relevantes, incluindo cotas agrícolas e mecanismos de salvaguarda, mas enfrenta falta de decisão política do lado europeu.

Lula revelou que a resistência mais recente veio da Itália, devido a disputas internas sobre subsídios agrícolas, e não apenas da França, historicamente contrária ao acordo. Em conversa telefônica com a primeira-ministra Giorgia Meloni, segundo o presidente, houve o compromisso de apoio à assinatura em janeiro. Ele afirmou que, caso reste apenas a oposição francesa, não haverá força política suficiente para barrar o tratado.

Enquanto isso, o Mercosul busca diversificar parcerias, com avanços nas negociações com EFTA, Índia, Canadá, Emirados Árabes Unidos, Japão e Vietnã, além de acordos regionais pendentes com países sul-americanos.

Integração como estratégia geopolítica

Ao longo do discurso, Lula voltou a defender a integração como eixo estratégico para o desenvolvimento e a autonomia regional. Destacou investimentos em infraestrutura, energia, transição energética e cadeias produtivas regionais, alertando para o risco de a América do Sul voltar a ser apenas exportadora de matérias-primas.

A fala encerrou com uma referência histórica à Operação Condor, lembrando os 50 anos da articulação repressiva entre ditaduras do Cone Sul. O presidente defendeu que, diante desse passado, cabe aos governos democraticamente eleitos aprofundar a cooperação regional em defesa dos direitos humanos, da democracia e da paz.

Ao assumir posição firme contra uma intervenção armada na Venezuela e cobrar multilateralismo, Lula recoloca o Brasil como ator ativo na diplomacia sul-americana, apostando na integração regional como antídoto à instabilidade política, econômica e militar em um cenário internacional cada vez mais fragmentado.

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