Cúpula do Mercosul avança em negociações paralelas e cooperação contra o crime organizado

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Por Redação do Interior

A Cúpula do Mercosul, realizada em Foz do Iguaçu (PR), reúne os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil), Javier Milei (Argentina), Santiago Peña (Paraguai) e Yamandú Orsi (Uruguai) em um momento de frustração com a União Europeia, já que não haverá assinatura nem conclusão de acordos comerciais durante o encontro.

A única ausência entre os chefes de Estado é a do presidente da Bolívia, Rodrigo Paz, recém-empossado e ainda em processo de organização do novo governo. Por outro lado, participa da cúpula o presidente do Panamá, José Raúl Mulino, país que passou a integrar recentemente o Mercosul como Estado Associado, ampliando o raio de articulação política do bloco.

Sem avanços imediatos com a União Europeia, a presidência brasileira do Mercosul aposta em marcar progressos simultâneos em várias frentes de negociação, mirando acordos comerciais com Emirados Árabes Unidos, Canadá, Índia, além de outros parceiros estratégicos. A estratégia busca reduzir a dependência de um único eixo negociador e reforçar o protagonismo internacional do bloco sul-americano.

Início dos trabalhos e inauguração de ponte internacional

Os trabalhos da cúpula tiveram início na sexta-feira (19), com a chegada dos ministros de Relações Exteriores dos países membros e associados. O chanceler brasileiro Mauro Vieira recepcionou as delegações e conduziu reuniões preparatórias que deram o tom político do encontro.

Ainda no primeiro dia, o presidente Lula inaugurou a nova ponte internacional entre Brasil e Paraguai sobre o Rio Paraná, em Foz do Iguaçu. A obra, considerada estratégica para a integração regional e o escoamento de cargas, recebeu investimento de R$ 1,9 bilhão, com recursos dos dois países, e terá o tráfego liberado de forma gradual.

Com 760 metros de extensão, a ponte foi financiada pela Itaipu Binacional, em um arranjo institucional que envolveu o governo brasileiro, o DNIT e o governo do Paraná.

Segurança regional entra no centro da agenda

Um dos principais anúncios da cúpula foi a aprovação da criação de uma comissão permanente para coordenar estratégias de combate ao crime organizado no Mercosul. A decisão foi tomada em reunião do Grupo Mercado Comum, às vésperas do encontro presidencial, com participação de Brasil, Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai.

A comissão terá reuniões periódicas e atuará de forma integrada, envolvendo diferentes órgãos nacionais, como Ministérios da Justiça, Ministérios Públicos e Polícias Federais, além de ações conjuntas de inteligência. Também foi firmado um acordo específico para reforçar o combate ao tráfico de pessoas.

A iniciativa responde ao avanço de facções criminosas na região, especialmente em áreas de fronteira, e ocorre em um contexto de pressão internacional, incluindo a ofensiva do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra a Venezuela, sob o discurso de combate ao narcotráfico.

A Bolívia é considerada estratégica nesse cenário, por ser apontada como um dos principais hubs de entrada da pasta-base de cocaína produzida no Peru, o que reforça a necessidade de coordenação regional.

Reflexos na política interna brasileira

A agenda de segurança discutida no Mercosul dialoga diretamente com o cenário doméstico do governo Lula. Segundo o mais recente levantamento do Datafolha, 16% dos brasileiros apontam a segurança pública como o principal problema do país.

Em 2026, o Congresso Nacional deve analisar propostas centrais para a área, como a PEC da Segurança Pública e o PL Antifacção, que buscam endurecer o enfrentamento ao crime organizado e ampliar a cooperação entre União, estados e municípios.

Com isso, a cúpula em Foz do Iguaçu reforça que, mesmo sem avanços comerciais imediatos, o Mercosul tenta se reposicionar como um bloco capaz de articular integração econômica, infraestrutura regional e respostas conjuntas a desafios transnacionais, como o crime organizado.

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