Po Redação do Interior – Com informações do jornal El País
O governo do presidente argentino Javier Milei decidiu adiar para 2026 o debate legislativo sobre a reforma trabalhista, uma das principais apostas do seu programa econômico, após sofrer um revés significativo no Congresso e enfrentar uma forte mobilização sindical nas ruas. O recuo demonstra os limites políticos do projeto ultraliberal do presidente e expõe fragilidades na coalizão que sustenta o Executivo no Parlamento.
A decisão veio na esteira de uma derrota considerada inesperada na Câmara dos Deputados. Embora o governo tenha conseguido aprovar o Orçamento Nacional, os parlamentares rejeitaram a proposta do Executivo de revogar leis que haviam restaurado parte do financiamento para universidades públicas e para políticas voltadas a pessoas com deficiência — áreas duramente afetadas pelos cortes promovidos por Milei. A rejeição foi ampla e contou, inclusive, com votos de aliados do governo, frustrando a expectativa de que a nova composição da Câmara, após as eleições de meio de mandato, garantisse maior margem de manobra ao presidente.
Horas depois da votação, a pressão política se deslocou para as ruas. Sindicatos ligados à Confederação Geral do Trabalho (CGT), além das duas alas da Central de Trabajadores de la Argentina (CTA), lideraram um grande protesto na Praça de Maio, em Buenos Aires, contra a reforma trabalhista. A proposta do governo prevê, entre outros pontos, a redução das indenizações por demissão, o corte de contribuições patronais, a flexibilização das negociações salariais, a revisão ou revogação de convenções coletivas e restrições ao direito de greve.
Sob o lema “Em defesa do trabalho e da dignidade”, a mobilização reuniu trabalhadores de diversas categorias — de professores e servidores públicos a caminhoneiros e petroleiros — e contou também com a participação de movimentos sociais e partidos de esquerda. Em discursos duros, lideranças sindicais classificaram a reforma como “regressiva e precária”, acusando o governo de atuar em favor de grandes corporações e de aprofundar a precarização do mercado de trabalho. Representantes da CGT chegaram a ameaçar uma greve geral caso o Executivo insista em avançar com o projeto nos moldes atuais.
Do ponto de vista político, o episódio marca uma inflexão no ritmo reformista de Milei. Enquanto milhares protestavam do lado de fora do Congresso, uma comissão do Senado ainda discutia o texto da reforma. O governo pretendia obter ao menos uma aprovação preliminar antes do fim do ano, mas anunciou o adiamento da tramitação para 2026 — inicialmente, para depois do recesso legislativo. A mudança de estratégia revela cautela diante de um cenário parlamentar mais instável do que o previsto.
Além da derrota legislativa, pesou no cálculo do governo o desgaste de alianças consideradas centrais para a governabilidade. A articulação entre o partido de Milei, La Libertad Avanza, setores do PRO, do ex-presidente Mauricio Macri, e forças provinciais mostrou-se menos sólida, especialmente após acordos pontuais com o kirchnerismo que geraram ruídos internos. O episódio lança dúvidas sobre a capacidade do Executivo de sustentar reformas estruturais profundas sem uma base política mais coesa.
O adiamento da reforma trabalhista, portanto, não é apenas um ajuste de calendário. Ele sinaliza que, apesar do discurso confrontacional e da agenda radical de mudanças, o governo Milei enfrenta resistências institucionais e sociais relevantes. A combinação de derrotas no Congresso e mobilização sindical indica que o custo político das reformas pode ser mais alto do que o Planalto argentino inicialmente calculava.
