Da Redação
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva publicou neste domingo (14) uma mensagem de cumprimento ao presidente eleito do Chile, José Antonio Kast, vencedor do segundo turno das eleições presidenciais. Em nota divulgada nas redes sociais, Lula desejou sucesso ao novo mandatário chileno e destacou a importância da cooperação entre os dois países.
“Faço votos de pleno êxito ao presidente eleito no desempenho de seu futuro mandato”, escreveu o presidente brasileiro. “Seguiremos trabalhando com o novo governo chileno em favor do fortalecimento das excelentes relações bilaterais, dos sólidos laços econômico-comerciais que unem Brasil e Chile, pela integração regional e a manutenção da América do Sul como zona de paz”, acrescentou.
Segundo dados oficiais divulgados pelo Serviço Eleitoral do Chile e noticiados pelo jornal El País, José Antonio Kast, advogado de 59 anos e líder do Partido Republicano, de extrema-direita, venceu a disputa com 58,1% dos votos, com 99% das urnas apuradas. A candidata da esquerda, Jeannette Jara, advogada de 51 anos e filiada ao Partido Comunista, obteve 41,8% dos votos — o pior desempenho do campo progressista desde o retorno da democracia, em 1990.
A vitória de Kast marca um fato inédito na história recente do Chile: é a primeira vez que um presidente eleito não se distanciou publicamente da ditadura de Augusto Pinochet (1973–1990). Kast apoiou a opção “Sim” no plebiscito de 1988 e, ao longo de sua trajetória política, não rompeu com o legado do regime militar. Ele sucederá o atual presidente Gabriel Boric, expoente da nova esquerda chilena, que deixará o cargo aos 40 anos.
Jeannette Jara reconheceu rapidamente o resultado. “A democracia falou alto e claro. Acabei de entrar em contato com o presidente eleito José Antonio Kast para desejar-lhe sucesso para o bem do Chile”, escreveu a candidata em suas redes sociais. Boric também telefonou para o sucessor, em uma ligação tornada pública, como é tradição no país. “O Chile é maior do que você e eu”, afirmou o atual presidente. Kast agradeceu e prometeu uma “transição muito ordeira”, pedindo que as opiniões do governo atual fossem consideradas até a posse, marcada para 11 de março.
Em pronunciamento no Palácio de La Moneda, ao lado da porta-voz Camila Vallejo e do ministro do Interior, Álvaro Elizalde, Boric afirmou que a democracia chilena sai fortalecida do processo eleitoral e incentivou o presidente eleito a “construir pontes”.
A vitória de Kast consolida a guinada conservadora no Chile e dialoga com um movimento mais amplo observado em partes da América do Sul. Apoiado pela direita tradicional e pelo Partido Libertário, Kast venceu com uma vantagem de cerca de 16 pontos percentuais, como já indicavam as pesquisas. Sua campanha foi centrada nas promessas de ordem, segurança pública e combate à imigração irregular — temas que figuram entre as principais preocupações da população.
O presidente eleito promete governar sob um “estado de emergência” para enfrentar o que define como três grandes crises do país: criminalidade, imigração irregular e baixo crescimento econômico. Entre as propostas, estão o endurecimento das políticas de segurança, medidas severas contra cerca de 330 mil imigrantes indocumentados — em sua maioria venezuelanos — e um corte de US$ 6,5 bilhões nos gastos públicos, embora sem detalhar como isso será feito.
Apesar do discurso duro, Kast não terá maioria no Congresso. Seu partido ampliou a presença na Câmara dos Deputados, mas a oposição de esquerda mantém influência no Senado. Analistas avaliam que o novo governo enfrentará dificuldades para implementar reformas profundas sem negociações com outras forças políticas.
Para a cientista política Stéphanie Alenda, a vitória de Kast não deve ser interpretada como um endosso majoritário a um projeto ideológico coeso ou como simples nostalgia do pinochetismo. Segundo ela, o resultado expressa o esgotamento de um ciclo político e a incapacidade das forças tradicionais — esquerda, centro e direita — de oferecer respostas convincentes a uma sociedade marcada por crises de segurança, governança e expectativas frustradas.
Seis anos após a revolta social de 2019 e quatro anos depois da eleição de Boric, os eleitores chilenos voltaram a mudar de rumo. A incógnita agora é como Kast governará: se seguirá modelos como os de Giorgia Meloni, Jair Bolsonaro ou Javier Milei, ou se adotará uma combinação própria em um país historicamente sensível a rupturas institucionais.
