Da Redação
Jason Stanley, filósofo e estudioso do fascismo, afirma em entrevista a Folha de São Paulo, que deixou os Estados Unidos por considerar real o risco de o país caminhar para uma ditadura autoritária sob Donald Trump. Ex-professor de Yale, ele se autoexilou no Canadá, onde hoje leciona na Universidade de Toronto, dizendo que ali pode atuar sem o medo de retaliações institucionais.
Na avaliação de Stanley, a luta contra o fascismo é global — e o Brasil ocupa papel central nesse enfrentamento. Ele sustenta que o país deu um exemplo ao responsabilizar Jair Bolsonaro por tentar se manter no poder após a derrota eleitoral, destacando a coragem do STF, a solidez das instituições e a atuação firme da imprensa e da sociedade civil, que não se deixaram intimidar. Para ele, o mundo observa o Brasil para entender como foi possível conter um líder autoritário mesmo sob ataques às instituições.
Ao comparar Brasil e EUA, Stanley diz não se surpreender com a fragilidade das instituições americanas diante de Trump. Afirma que os EUA são profundamente corruptos, dominados por oligarcas e bilionários, sem controles rígidos sobre financiamento de campanhas, o que facilita a captura do Estado por interesses econômicos. Segundo ele, universidades, parte da imprensa e a Suprema Corte americana optaram por se acomodar ao poder, ao contrário do que ocorreu no Brasil.
Stanley avalia que Trump ainda não consolidou uma ditadura, sobretudo porque os eleitores seguem livres e há oposição política relevante, mas alerta que o Partido Republicano age como se fosse permanecer no poder indefinidamente. Para ele, a ameaça maior está na “máquina” por trás de Trump, formada por supremacistas brancos, grupos da extrema direita cultural e oligarcas, cujos interesses convergem temporariamente. Nesse cenário, vê o vice J. D. Vance como um potencial sucessor ainda mais eficiente e perigoso na tentativa de instaurar um regime autoritário.
O filósofo faz duras críticas ao ICE, agência de imigração dos EUA, que compara às SA do regime nazista. Segundo ele, o órgão normaliza práticas de crueldade extrema e ajuda a redefinir o que significa ser americano, associando patriotismo à violência, ao racismo e à desumanização de imigrantes.
Sobre o avanço da extrema direita no mundo, Stanley afirma que, diferentemente do fascismo do século 20, não são necessárias crises econômicas profundas. Movimentos autoritários atuais criam “crises inventadas”, como a imigração ou a chamada “ideologia woke”, mobilizando medo, nacionalismo cristão, homofobia e misoginia.
Por fim, ele avalia que a queda de popularidade de Trump tende a acelerar práticas autoritárias e provocar disputas internas no Partido Republicano. Stanley diz que só consideraria retornar aos EUA se houvesse uma reversão clara desse quadro. Por ora, seu objetivo no Canadá é ajudar a construir um polo internacional de resistência ao autoritarismo — no qual o Brasil, segundo ele, já demonstrou ser um exemplo decisivo.
