Samu registra explosão de casos de violência contra mulheres em Alagoas

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Da Redação

O aumento expressivo de atendimentos a mulheres vítimas de agressões tem colocado o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) na linha de frente do enfrentamento à violência de gênero em Alagoas. Entre janeiro e novembro de 2025, as Centrais de Maceió e Arapiraca registraram 215 ocorrências de violência doméstica — uma média de 20 atendimentos mensais. Apesar de representar apenas os casos mais graves, o dado evidencia a dimensão e a gravidade do problema no estado.

Um dos episódios recentes ocorreu na quarta-feira (10), no Benedito Bentes, em Maceió, quando uma mulher de 48 anos foi brutalmente atacada a pedradas pelo marido. Ela apresentava sangramento intenso na cabeça e lesões na perna, sendo estabilizada ainda no local e encaminhada ao Hospital Geral do Estado (HGE). Situações semelhantes, envolvendo espancamentos, armas brancas, armas de fogo e tentativas de feminicídio, têm se repetido com frequência.

Para a coordenadora-geral do Samu em Alagoas, Beatriz Santana, o padrão de violência tem se tornado cada vez mais severo. “Nossas equipes se deparam com situações de extrema violência. Isso nos mobiliza não só do ponto de vista assistencial, mas humano”, afirma. Ela explica que os profissionais são treinados para identificar sinais de agressão mesmo quando a vítima tenta ocultar o ocorrido. “O medo de nomear o agressor, a versão contraditória, a postura corporal: tudo isso aciona nosso protocolo de atenção integral”.

Além do atendimento clínico, as equipes orientam as vítimas sobre seus direitos e os caminhos disponíveis para proteção. “Falamos sobre a Lei Maria da Penha, a possibilidade de acionar a polícia e solicitar medidas protetivas. Para muitas mulheres, o Samu é a primeira porta de entrada para romper o ciclo da violência”, acrescenta Beatriz.

Violência cresce e subnotificação persiste

Os números de atendimentos do Samu refletem apenas parte do cenário. Em setembro de 2025, Alagoas registrou 466 casos de violência contra a mulher — sendo 222 apenas em Maceió. No primeiro semestre, foram contabilizados 6.811 boletins de ocorrência por violência doméstica no estado, mais da metade (52,7%) na capital.

Apesar do aumento de prisões em flagrante, especialistas alertam que a subnotificação continua alta. Muitas mulheres não denunciam por medo, dependência financeira ou falta de apoio institucional. O crescimento dos registros, portanto, convive com omissões que dificultam a real dimensão do problema.

Na sessão da Assembleia Legislativa desta quarta feira (10), a deputada Cibele Moura  voltou a cobrar a regulamentação e implementação da lista pública de estupradores e agressores de mulheres, prevista em lei aprovada pela própria Assembleia. Segundo a deputada, a ferramenta é essencial para ampliar a transparência, fortalecer políticas de prevenção e permitir que a população identifique autores de violência.

Para Cibele, a ausência dessa lista compromete a efetividade de outras medidas já adotadas. “O Estado tem instrumentos jurídicos aprovados e validados, mas é preciso tirá-los do papel. A sociedade exige respostas rápidas e consistentes”, destacou.

A parlamentar também condenou a permanência de agressores em regime aberto, especialmente em casos de reincidência. Cibele defendeu que autores desse tipo de crime cumpram pena em regime fechado para reduzir riscos de repetição das agressões. “Reincidências acontecem porque o sistema é permissivo. Não há como proteger mulheres mantendo agressores circulando livremente”, afirmou no plenário.

No país, a situação segue igualmente grave. Em 2023, o Brasil registrou 1.463 feminicídios — o maior número desde que o crime foi tipificado. As estimativas para 2024 mantêm o índice próximo de quatro assassinatos de mulheres por dia. Neste ano, a Lei nº 14.994/2024 transformou o feminicídio em crime autônomo, endurecendo penas e ampliando mecanismos de proteção.

Desafios estruturais no enfrentamento

Para especialistas e gestores, a persistência dos casos violentos — incluindo agressões reiteradas, descumprimento de medidas protetivas e ausência de acompanhamento contínuo — indica falhas estruturais nas políticas de prevenção e proteção às mulheres. Mesmo em áreas com maior presença policial, como Maceió, episódios de violência se acumulam: apenas na noite de 15 de novembro, foram registradas cinco ocorrências de violência doméstica na capital.

O Samu, por sua vez, permanece como peça-chave na resposta imediata. “Nossa atuação vai além do atendimento físico. É acolhimento, escuta, orientação e, muitas vezes, o primeiro passo para que a vítima busque ajuda formal”, destaca Beatriz Santana.

Com a escalada dos atendimentos e a pressão crescente por políticas públicas mais eficazes, o desafio do estado é romper um ciclo que se repete ano após ano — e que continua a colocar mulheres em risco dentro de suas próprias casas.

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