Texto adaptado — fonte: El País; reportagem originalmente escrita em espanhol. Imagem – Horacio Villalobos (Corbis via Getty Images)
A hostilidade contra brasileiros em Portugal tem se intensificado e ganhou novos contornos ao longo dos últimos meses, segundo reportagem do El País, publicada originalmente em espanhol. Com base em dados recentes e episódios marcados por violência, a matéria indica que 51% dos portugueses acreditam que o número de brasileiros no país deveria diminuir — um reflexo do avanço de discursos xenófobos e da polarização política.
A comunidade brasileira, a maior entre os estrangeiros residentes, ultrapassou a marca de meio milhão de pessoas em 2024, considerando tanto moradores regulares quanto aqueles em processo de regularização. Esse crescimento, porém, vem acompanhado de rejeição crescente em parte da sociedade portuguesa.
Entre os casos mais extremos relatados pelo jornal está o do padeiro João Paulo Silva Oliveira, de 56 anos, que viralizou ao publicar um vídeo oferecendo 500 euros “pela cabeça de cada brasileiro”. Ele acabou demitido e detido pela Polícia Judiciária, respondendo por incitação à violência e homicídio. Outro caso citado envolve Bruno Silva, de 30 anos, preso preventivamente após oferecer um apartamento avaliado em 300 mil euros para quem promovesse um massacre contra brasileiros e ameaçando uma jornalista brasileira que atuava em Lisboa.
A violência também atinge menores. Em novembro, um menino brasileiro de 10 anos perdeu as falanges de dois dedos após um episódio de agressão em uma escola no centro do país. A família relata que ele vinha sofrendo bullying por “falar brasileiro”, e a advogada que acompanha o caso aponta indícios de negligência por parte da escola.
Indicadores oficiais já demonstravam a escalada da discriminação. Entre 2018 e 2022, as denúncias registradas na Comissão de Igualdade e Contra a Discriminação Racial aumentaram 142%. Os brasileiros respondem pela maior parte das queixas, representando 34% das denúncias em 2022.
Especialistas ouvidos pelo El País apontam que parte desse ambiente hostil é alimentada pela retórica de extrema direita, que ganhou força no Parlamento e nos debates públicos após a ascensão do partido Chega. Discursos que associam imigração à criminalidade e reforçam estereótipos sobre brasileiros, especialmente mulheres, têm contribuído para tensões no cotidiano, desde o acesso a moradia e emprego até situações de violência explícita.
O cenário preocupa organizações de apoio a imigrantes, que relatam medo generalizado entre brasileiros para denunciar agressões e discriminação. Ainda assim, iniciativas locais — como ações da prefeitura de Braga, cidade com alta concentração de brasileiros — têm conseguido melhorar a integração por meio de medidas de acolhimento e combate à xenofobia.
Segundo o El País, o tema da imigração tem sido tratado como prioridade pelo atual governo português, com reformas aceleradas nas leis relacionadas a estrangeiros. O ritmo das mudanças, contudo, já provocou questionamentos sobre compatibilidade com a Constituição e levantou debates sobre o futuro da política migratória no país.
