Ângela Diniz, uma série obrigatória num país que massacra mulheres todos os dias

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  • Atrocidades contra Tainara Santos e Evelin Saraiva mostram que Brasil não evoluiu nada quase 50 anos depois do crime contra a socialite
  • Produção da HBO Max com Marjorie Estiano constrói a relação tóxica entre Ângela e seu assassino, Doca Street, de forma superior à do filme de 2023

Thiago Stivaletti Folha de A Paulo

Em apenas dois dias, o Brasil se chocou com dois crimes atrozes contra mulheres em São Paulo. No primeiro, Tainara Souza Santos teve as duas pernas amputadas após ser atropelada e arrastada por mais de um quilômetro pelo ex-namorado, Douglas Alves da Silva.

No outro, Evelin Saraiva tomou cinco tiros do ex, Bruno Lopes Barreto. Os crimes escabrosos tornam ainda mais atual “Ângela Diniz: Assassinada e Condenada” (HBO Max), em que Marjorie Estiano reabilita a memória da socialite assassinada há quase 50 anos pelo namorado, Doca Street.

“Ângela Diniz”, a série, ajuda a sensibilizar o público para a violência sistemática contra as mulheres da mesma forma que “Ainda Estou Aqui” provocou empatia pelas vítimas da ditadura militar: nos fazendo acompanhar, ao longo de seis episódios, como uma mulher que ousou ser livre e seguir seus próprios desejos nos anos 70 despertava a ira e o ressentimento dos homens que se apaixonavam por ela, mas não conseguiam “enquadrá-la” numa relação exclusiva do jeito que gostariam.

O roteiro de Elena Soárez, Pedro Perazzo e Thais Tavares, baseado no podcast “Praia dos Ossos”, é hábil em duas frentes. Na primeira, dá conta da personagem complexa de Ângela, que (sim) adorava festas e flertes (com homens e mulheres), bebidas e drogas.

Isso não a impedia de ser uma mãe atenciosa e carinhosa, que fez de tudo para recuperar a guarda judicial da filha, além de ótima filha e grande amiga. O problema era (e é) justamente esse: na lógica binária da cultura machista, uma mulher que ama festas e a vida noturna e não esconde sua beleza e sensualidade não pode ser “adequada” para ser boa esposa ou boa mãe.

De tóxico a assassino

Na segunda frente, a série constrói gradualmente e sem pressa a relação entre Ângela e Doca (o ótimo Emílio Dantas). O comportamento possessivo dele vai aparecendo aos poucos, como quando invade o vestiário feminino de um clube em Belo Horizonte transtornado porque perdeu de vista Ângela por poucos minutos.

Num crescendo bem construído, a série dirigida por Andrucha Waddington (de “Vitória”) dá conta de como uma relação tóxica muitas vezes não é evidente de cara – pelo simples fato de que o homem ciumento e possessivo se esforça de início em parecer mais aberto e desprendido do que é.

Com mais tempo de desenvolvimento da história, “Ângela Diniz”, a série, resulta muito mais bem-sucedida do que o filme “Ângela” (2023), de Hugo Prata, com Isis Valverde na pele da socialite. O longa se concentrava na relação de Ângela e Doca, sem mostrar a vida pregressa da vítima, e terminava sem mostrar o julgamento do empresário, que indignou mulheres no país inteiro e deu força para fortalecer o movimento feminista no Brasil.

Relembrando: no primeiro julgamento, Doca pôde sair pela porta da frente do tribunal; ele já tinha cumprido sete meses de prisão, foi condenado a mais dois anos, mas pôde cumpri-los em liberdade. No segundo julgamento, que só veio graças à pressão da opinião pública, recebeu pena de 15 anos, mas cumpriu apenas três em regime fechado.

Foi uma pena brandíssima por ter dado quatro tiros, três no rosto e um na nuca, e acabado com a vida de uma mulher de 32 anos. Mas não chega a surpreender quando lembramos que apenas ontem, em 2023, o STF julgou inconstitucional usar o argumento de legítima defesa da honra em julgamentos de feminicídio.

Como mostram as duas barbáries dos últimos dias em São Paulo, o bicho homem continua sendo uma real ameaça às mulheres no Brasil. Se o caso de Ângela Diniz hoje ganha até série, cabe à mídia jogar luz constante sobre cada nova atrocidade e feminicídio. O que é infame e absurdo não pode ser normalizado jamais.

Ângela Diniz: Assassinada e Condenada

Cinco episódios já disponíveis na HBO Max

Último episódio disponível na próxima quinta (11)

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