Da Redação
O resgate de uma mulher em surto psicótico na praia da Jatiúca, em Maceió, na noite de 25 de novembro, recoloca em evidência o aumento das emergências psiquiátricas em Alagoas. A vítima, de 43 anos, entrou no mar durante a crise e começou a se afogar, sendo retirada da água por policiais da Operação Policial Litorânea Integrada (Oplit). A ação, que exigiu atendimento médico tanto da mulher quanto da policial que participou do salvamento, reflete um contexto mais amplo: o estado registra crescimento consistente de episódios graves ligados à saúde mental.
Nos últimos anos, Alagoas tem observado avanço expressivo nos atendimentos relacionados a crises psiquiátricas. Apenas no primeiro semestre de 2025, o Samu contabilizou 791 ocorrências desse tipo em todo o estado. A capital concentrou uma parcela significativa dessa demanda, com aumento de 28% nos atendimentos psiquiátricos e psicológicos na comparação com o mesmo período do ano anterior. Entre as ocorrências registradas pelo serviço móvel, 241 foram classificadas como tentativas de suicídio, indicador que mostra o quanto as crises têm se apresentado de forma aguda e perigosa.
Esse crescimento acompanha uma tendência de sobrecarga mais ampla. Em 2024, Alagoas registrou quase três mil afastamentos do trabalho por motivos de saúde mental. Os diagnósticos mais frequentes envolveram ansiedade, depressão, transtorno bipolar, reações a estresse grave, dependência de substâncias e quadros psicóticos. Só a categoria relacionada à psicose foi responsável por mais de quarenta afastamentos naquele ano, evidenciando que crises como a vivida pela mulher resgatada fazem parte de um problema social crescente e não de um caso isolado.
As causas desse avanço são diversas e se somam: sobrecarga emocional, vulnerabilidade social, ampliação do uso de substâncias psicoativas e impacto acumulado de contextos traumáticos recentes. Ao mesmo tempo, muitos surtos psicóticos surgem de forma abrupta e em pessoas sem diagnóstico prévio, fenômeno observado em transtornos psicóticos breves desencadeados por estresse intenso. Em situações assim, o risco para a integridade física é elevado, já que a pessoa perde, ainda que temporariamente, a capacidade de avaliar perigos, como ocorreu na praia da Jatiúca.
O aumento da demanda levou o estado a reforçar a Rede de Atenção Psicossocial. Em 2024, o Ministério da Saúde destinou mais de três milhões de reais para habilitar novos serviços especializados, incluindo centros de atenção psicossocial, residências terapêuticas e unidades de acolhimento. A expansão da rede é estratégica, mas os números mostram que ela ainda precisa crescer para acompanhar o ritmo das ocorrências, especialmente fora da capital, onde os serviços são mais escassos e a população encontra dificuldade para acessar atendimento contínuo.
O episódio na orla de Maceió também destaca o papel das forças de segurança e do atendimento emergencial em situações de crise psiquiátrica. Cada vez mais, equipes policiais e de resgate se veem diante de ocorrências em que o risco é imediato e exige abordagem técnica e sensível. A ação da Oplit evitou que o surto resultasse em morte por afogamento, mas expõe a urgência de ampliar treinamentos específicos para crises psicóticas, integrando protocolos de saúde mental ao trabalho cotidiano das forças policiais.
O crescimento dos surtos psicóticos e das emergências psiquiátricas revela que Alagoas enfrenta um desafio de saúde pública de caráter estrutural. O episódio na Jatiúca é um retrato desse cenário: crises que se manifestam de forma imprevisível, colocam vidas em risco e pressionam sistemas de saúde, segurança e assistência social. Sem políticas contínuas de prevenção, tratamento e acolhimento, a tendência é que situações como essa se tornem mais frequentes, ampliando a vulnerabilidade de quem enfrenta transtornos mentais e exigindo respostas cada vez mais complexas do poder público.
