Alagoas mantém índices elevados de violência e Semu leva debate sobre masculinidades a homens em reabilitação

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Da Redação

A violência contra mulheres permanece como um dos principais desafios em Alagoas, mesmo diante do crescimento das políticas públicas de proteção e do aumento das denúncias. Em 2024, o estado registrou mais de sete mil violações, incluindo agressões físicas e psicológicas, exploração sexual e outras formas de violação de direitos. Na mesma direção, a Central Ligue 180 contabilizou mais de dez mil atendimentos, indicando elevação tanto no volume de denúncias quanto no número de relatos feitos pelas próprias vítimas.

Grande parte das ocorrências segue concentrada no ambiente doméstico, tendo parceiros e ex-parceiros como principais agressores. O perfil das vítimas permanece estável: mulheres jovens, especialmente entre 25 e 29 anos, e majoritariamente negras ou pardas. Embora os feminicídios tenham apresentado queda recente, o panorama continua preocupante. Entre 2020 e 2024, foram mais de 370 mortes de mulheres no estado, das quais cerca de um terço classificadas como feminicídio. Em setembro de 2025, apenas um mês registrou 466 ocorrências de violência contra mulheres em Alagoas, quase metade delas na capital.

Os dados apresentam um paradoxo: as denúncias aumentam, mas o volume de violações não reduz na mesma proporção. A diferença entre os casos identificados e os formalizados evidencia um cenário de subnotificação, marcado por medo, dependência econômica, vínculos afetivos e insegurança institucional.

Semu leva debate sobre masculinidades a homens em reabilitação

Nesse contexto, a Secretaria de Estado das Mulheres (Semu) realizou um cine-debate com pacientes da Clínica de Reabilitação Maceió, no Village Campestre. A proposta reuniu homens em processo de cuidado, ampliando o alcance de ações educativas que tradicionalmente são direcionadas apenas às vítimas.

A atividade incluiu a exibição do documentário O Silêncio Entre os Homens, que aborda masculinidades, desigualdades de gênero e responsabilidade emocional. A partir do filme, a equipe da Semu conduziu uma roda de conversa que estimulou reflexões sobre comportamentos machistas arraigados, o papel social do homem como cuidador e a importância da autoconsciência na desconstrução de padrões violentos.

A ação integra a campanha estadual dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres e dialoga com o período nacional de mobilização masculina contra agressões de gênero. Ao levar o debate para um espaço de reabilitação, a iniciativa amplia o alcance das políticas de prevenção e reconhece que transformações culturais exigem envolvimento direto dos homens.

Programas de reeducação ganham força no MP e no Judiciário

A iniciativa da Semu está alinhada a uma tendência nacional que envolve Ministério Público e Poder Judiciário na responsabilização e reeducação de homens autores de violência doméstica. Grupos reflexivos, oficinas educativas e programas de acompanhamento psicossocial se consolidaram como estratégias complementares às punições legais, buscando atingir a raiz comportamental do problema.

Diversos estados mantêm programas estruturados, como o Tempo de Despertar, surgido em São Paulo, que se tornou referência ao reunir homens acusados de violência em ciclos educativos conduzidos por equipes multidisciplinares. O Ministério Público de Sergipe e o Tribunal de Justiça de Pernambuco avançaram na institucionalização desses grupos, com orientações formais e criação de programas específicos voltados à reflexão, responsabilização e prevenção da reincidência.

Nas varas de violência doméstica, esses grupos são adotados como medida protetiva ou alternativa penal, reforçando que o enfrentamento da violência não se limita à punição, mas inclui desconstrução de masculinidades agressivas e promoção de comportamentos igualitários.

Convergência entre políticas públicas e transformação cultural

A articulação entre ações comunitárias, como a promovida pela Semu, e programas institucionais do sistema de Justiça mostra que a prevenção da violência contra mulheres exige esforços integrados. A reeducação de homens autores ou potenciais autores de violência se tornou peça essencial para romper ciclos de agressão e transformar comportamentos enraizados.

Ao alcançar públicos que raramente participam desse tipo de discussão — como homens em tratamento para dependência ou em processos de reconstrução pessoal — a ação da Semu evidencia que a prevenção começa pela consciência. Em um estado com índices historicamente elevados, políticas que combinam educação, responsabilização e redes de proteção se mostram fundamentais para avançar na redução da violência e fortalecer uma cultura de respeito.

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