Cresce a onda de violência contra crianças brasileiras em escolas portuguesas, relatam famílias à BBC

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Da Redação

Uma série de denúncias feitas por mães brasileiras à BBC expõe um cenário crescente de violência, xenofobia e negligência institucional em escolas de diferentes regiões de Portugal. Os relatos, envolvendo crianças entre 7 e 9 anos, revelam um padrão de agressões físicas, perseguição e estigmatização que avança na esteira do sentimento anti-imigração e de um ambiente político cada vez mais hostil à presença estrangeira.

O caso mais grave ocorreu no norte do país, onde um menino de 9 anos teve dois dedos mutilados após ser encurralado no banheiro por colegas. A família afirma ter buscado a escola reiteradas vezes para denunciar episódios sucessivos de agressões, sem que medidas fossem tomadas. O episódio extremo levou a mãe a recorrer às redes sociais como única forma de pedir socorro e expor o que classificou como descaso institucional. Após a repercussão, a família mudou de cidade e avalia retornar ao Brasil por temer pela própria segurança.

Outras duas famílias ouvidas pela BBC descrevem situações semelhantes. Em Mira, no centro do país, uma criança diagnosticada com TDAH foi alvo de ataques físicos, insultos xenofóbicos e até agressões praticadas por uma professora. Segundo a mãe, episódios traumáticos se tornaram frequentes a ponto de o menino pedir para voltar ao Brasil, abalado emocionalmente e temendo ir à escola.

Em outro ponto do país, uma mãe relatou ter enviado o filho de volta ao Brasil após sucessivas agressões protagonizadas sempre pelos mesmos colegas portugueses. O menino, negro, teria sofrido ataques ligados à cor da pele e à nacionalidade, culminando na fratura da clavícula após um empurrão. A família diz ter encontrado resistência e minimização das ocorrências por parte da direção escolar, que classificou episódios violentos como “brincadeiras de criança”.

Organizações que atuam com imigrantes, também ouvidas pela BBC, afirmam que esses relatos não são isolados. Associações apontam que a violência contra alunos estrangeiros já é uma realidade conhecida e subestimada pelas instituições portuguesas, que evitam reconhecer a xenofobia como um fator determinante desses episódios. Especialistas veem reflexos diretos de um ambiente social marcado pelo aumento dos discursos anti-imigração e pela normalização de práticas discriminatórias no cotidiano.

Dados recentes reforçam a deterioração do cenário. Em 2023, Portugal registrou mais queixas por crimes de ódio e incitação à violência do que em qualquer ano anterior na última década. Pesquisas também mostram que mais da metade da população considera excessiva a presença de brasileiros no país, apesar de reconhecer sua importância econômica. Ao mesmo tempo, o número de ocorrências de violência nas escolas cresceu mais de 7% no último ano letivo, segundo informações oficiais.

Ainda que não existam levantamentos específicos sobre xenofobia no ambiente escolar, especialistas afirmam que o aumento de tensões e a falta de preparo para lidar com a diversidade revelam um problema estrutural: escolas que não conseguem proteger crianças imigrantes nem reconhecer a dimensão racial e nacionalista das agressões.

Enquanto o Ministério da Educação português permanece em silêncio sobre os casos relatados, famílias brasileiras seguem entre o medo, o adoecimento psicológico e o dilema de permanecer no país que escolheram para tentar oferecer aos filhos uma vida melhor. As mães ouvidas pela BBC descrevem frustração, sensação de impotência e, acima de tudo, a convicção de que seus filhos estavam mais seguros — e mais assistidos — quando ainda viviam no Brasil.

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