Unidade Yalorixá Tia Marcelina amplia confiança das vítimas, fortalece mecanismos de proteção e revela um cenário ainda marcado pela subnotificação
Da Redação
A criação da Delegacia Especializada Yalorixá Tia Marcelina, em Maceió, reorganizou a forma como Alagoas enfrenta a intolerância religiosa. Desde que a unidade passou a funcionar, as denúncias praticamente triplicaram, indicando não apenas a persistência do problema, mas, sobretudo, a ampliação da confiança das vítimas em buscar apoio institucional. Esse salto estatístico tem sido interpretado como reflexo direto da existência de um espaço preparado para acolher pessoas que antes hesitavam em registrar ocorrências.
A delegacia opera com uma equipe multidisciplinar dedicada a atender grupos vulneráveis, entre eles praticantes de religiões de matriz africana — historicamente os mais afetados pela discriminação religiosa no estado. Psicólogos, assistentes sociais e agentes especializados compõem o atendimento, o que favorece um ambiente menos burocrático e mais sensível às particularidades das violências denunciadas. O serviço funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h, no Complexo de Delegacias Especializadas, no bairro Mangabeiras, e recebe denúncias pelo telefone (82) 3315-8272, com sigilo garantido.
O aumento das notificações também coincide com o esforço do governo estadual em campanhas de esclarecimento e com ações de prevenção desenvolvidas por diferentes órgãos de direitos humanos. Essas iniciativas buscam explicar o que caracteriza intolerância religiosa e combater a desinformação, fortalecendo o diálogo entre comunidades de fé. A legislação brasileira tipifica esse tipo de crime: a intolerância religiosa é prevista na Lei nº 7.716/1989, que aborda práticas discriminatórias baseadas na crença ou na ausência dela.
Apesar dos avanços, pesquisadores e entidades apontam que ainda há significativa subnotificação. Muitos casos continuam restritos às dinâmicas internas das comunidades religiosas, sobretudo nos terreiros, onde o medo de retaliações e a sensação de vulnerabilidade permanecem presentes. Soma-se a isso a propagação de discursos de ódio nas redes sociais, que amplia estigmas e contribui para a formação de ambientes hostis.
O cenário atual revela um movimento de dupla face. De um lado, a violência religiosa segue evidente, especialmente contra tradições afro-brasileiras, herdeiras de uma perseguição histórica que atravessa o século XX e ainda se reflete no cotidiano. De outro, o estado apresenta mecanismos mais robustos de proteção, investigação e acolhimento, além de canais específicos para denúncias. Com a delegacia especializada, Alagoas passa a reunir dados mais consistentes sobre o tema e oferece uma estrutura que pode servir de referência nacional. O crescimento das denúncias não representa apenas um retrato mais fiel da violência religiosa, mas também o início de uma mudança institucional capaz de transformar a relação entre o Estado e populações historicamente marginalizadas pela fé que professam.
