Missa dos Quilombos: o ato religioso que desafiou a ditadura e ajudou a consolidar a Consciência Negra

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Da Redação com base em reportagem de Edison Veiga, publicada pela BBC News Brasil

Em novembro de 1981, no auge da ditadura militar, o Recife assistiu a um dos eventos mais emblemáticos da resistência política e racial no país. A Missa dos Quilombos, realizada no Pátio do Carmo — o mesmo local onde a cabeça de Zumbi dos Palmares foi exposta em 1695 — reuniu fé, arte e denúncia social em um gesto que contrariou o regime e tensionou a própria hierarquia da Igreja Católica.

A reportagem original, assinada por Edison Veiga para a BBC News Brasil, reconstitui o impacto do evento, que surgiu da articulação entre dois expoentes da Teologia da Libertação, dom Hélder Câmara e dom Pedro Casaldáliga. Ambos vislumbravam uma liturgia que incorporasse elementos afro-brasileiros e denunciasse o legado da escravidão, numa época em que o Vaticano ainda rejeitava esse tipo de expressão religiosa.

O projeto ganhou força com a adesão de Milton Nascimento e do poeta e ex-preso político Pedro Tierra, que transformaram o rito em uma obra artístico-litúrgica inédita. O resultado foi uma celebração católica com cânticos e textos que misturavam espiritualidade e crítica social — exaltando a luta quilombola e escancarando o racismo estrutural ignorado pelo discurso oficial da ditadura.

Antes da missa, o clima no Recife era de tensão. Cartazes foram vandalizados, opositores ligados ao Comando de Caça aos Comunistas espalharam ameaças, e houve relatos de planos para explodir a Igreja do Carmo. As autoridades militares monitoraram os organizadores, como mostram documentos da época. Apesar disso, cerca de 6 mil pessoas lotaram o pátio na noite de 22 de novembro de 1981.

Presidida por dom José Maria Pires, o único bispo negro do Brasil naquele período, a celebração durou cerca de 90 minutos e apresentou 11 canções interpretadas por Milton e um coro mineiro. As letras denunciavam a exploração do trabalho negro, rememoravam a resistência quilombola e evocavam elementos da tradição afro-brasileira — como referências a Xangô — integradas à liturgia.

O próprio evento tornou-se um enfrentamento simbólico. Dom Hélder Câmara, alvo constante da repressão e apelidado de “bispo vermelho”, reforçou em sua participação a necessidade de a Igreja assumir compromissos concretos diante da injustiça racial. Mesmo sem episódios de violência durante a cerimônia, panfletos difamatórios circularam no local.

A repercussão foi imediata — e controversa. Em 1982, o Vaticano enviou cartas reprovando a iniciativa, classificando-a como inadequadamente “racial” e “politizada”. A Missa dos Quilombos, porém, já havia ultrapassado fronteiras institucionais. Transformada em disco por Milton Nascimento, ganhou novo fôlego em 1995, quando foi apresentada no Santuário Nacional de Aparecida para 20 mil pessoas, no tricentenário da morte de Zumbi.

Especialistas entrevistados por Veiga concordam que a celebração de 1981 teve papel decisivo na consolidação do 20 de Novembro no imaginário nacional — um processo iniciado por organizações negras nos anos 1970 e que culminou, em 2023, na criação do feriado de Consciência Negra.

Mais que uma missa, o evento se tornou um manifesto. Ao unir história, espiritualidade, arte e resistência, a Missa dos Quilombos fincou um marco na luta antirracista brasileira e permanece como referência na memória coletiva sobre Zumbi, Palmares e a busca por justiça social.

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