Da Redação
O assassinato do médico Alan Carlos de Lima Cavalcante, ocorrido no último domingo (16) em Arapiraca, expôs uma trama complexa que envolve disputas judiciais, acusações entre ex-cônjuges, relatos contraditórios e uma execução registrada em vídeo. À medida que as investigações avançam, o caso ganha novos contornos e derruba versões apresentadas inicialmente.
Um histórico de conflitos e decisões que reacenderam tensões
O crime não surgiu de um episódio isolado. Alan e a ex-esposa, a médica Nádia Tamyres, acumulavam há anos disputas judiciais envolvendo a guarda da filha do casal. Em 2024, Nádia havia denunciado o ex-marido por abuso sexual, o que gerou meses de investigações. Exames periciais, entretanto, não apontaram sinais de violência, contribuindo para a absolvição de Alan.
A decisão favorável ao médico reacendeu a disputa familiar. Pouco depois, ele ingressou com um pedido de guarda compartilhada, o que, segundo investigadores, teria intensificado o conflito. O ambiente entre as famílias já era descrito como tenso, com relatos de atritos e tentativas de diálogo fracassadas.
A dinâmica do crime e as versões em choque
As câmeras da Unidade Básica de Saúde registraram toda a ação. As imagens mostram o médico dentro do carro estacionado, enquanto uma motociclista — identificada como cunhada da suspeita — permanece ao lado. Em seguida, Nádia chega em outro veículo, sai rapidamente e se dirige ao carro do ex-marido antes de efetuar os disparos.
Alan ainda tenta ligar o carro para fugir, mas morre sem conseguir deixar o local. A cena também registra uma discussão intensa entre a suspeita e a irmã do médico, reforçando o clima de animosidade que antecedia o ataque.
Mesmo com as imagens, Nádia apresentou uma versão distinta ao prestar depoimento: afirmou ter agido movida pelo medo, alegando legítima defesa. Segundo ela, o pânico teria provocado uma reação descontrolada. A Polícia Civil, contudo, não considera essa hipótese plausível neste momento.
Família da suspeita contesta a própria versão dela
Em um desdobramento inesperado, familiares da própria Nádia passaram a contestar publicamente sua justificativa. Parentes relatam que buscavam ajuda antes do homicídio devido ao comportamento dela que consideravam preocupante e chegaram a procurar o Ministério Público.
Também afirmam que a acusação contra Alan havia sido superada, apoiada em laudos oficiais que não identificaram conjunção carnal na criança. Para os familiares, o ataque teria sido premeditado, dado o contexto e a quantidade de tiros direcionados ao veículo.
Perícia indica que apenas um disparo atingiu o médico
Embora o carro de Alan tenha sido perfurado por pelo menos oito projéteis, apenas um disparo o atingiu. A perícia realizada pelo Instituto de Criminalística do Agreste confirmou que o tiro fatal alcançou o tórax da vítima, perfurando pulmão, aorta ascendente e átrio esquerdo. O projétil foi recuperado na musculatura das costas.
A conclusão reforça a tese de que o ataque mirou o veículo como um todo, mas foi um único impacto que causou a morte imediata. O laudo cadavérico foi confirmado pelo Instituto Médico Legal de Arapiraca.
Prisão preventiva e avanço das investigações
Nádia Tamyres, de 38 anos, teve a prisão em flagrante convertida em preventiva e foi transferida para o Presídio Feminino Santa Luzia. A decisão judicial considerou a gravidade do crime. A Delegacia de Homicídios da Capital assumiu o caso e deve aprofundar as linhas que apontam para premeditação, motivação ligada ao processo de guarda e possível envolvimento de terceiros.
O caso segue mobilizando a opinião pública por envolver dois profissionais da saúde, acusações sensíveis e divergências dentro da própria família da autora dos disparos. As autoridades ainda avaliam a cronologia dos fatos para entender de que forma a disputa judicial evoluiu para um desfecho tão extremo.
