Žižek: vitória de Mamdani mostra que a esquerda pode mobilizar os desiludidos que migraram para Trump

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Em artigo no El País, domingo (16) filósofo esloveno afirma que a eleição do socialista democrático Zohran Mamdani em Nova York expõe as fissuras do sistema político norte-americano e revela que apenas um projeto radical pode disputar o eleitorado que antes aderiu ao trumpismo.

Da Redação

A eleição de Zohran Mamdani como prefeito de Nova York, celebrada por movimentos progressistas em diversos países, representa, segundo Slavoj Žižek, um marco político de alcance maior do que a disputa municipal.

Em artigo publicado no El País, o filósofo esloveno argumenta que o triunfo de Mamdani demonstra algo essencial: a direita populista jamais teve o monopólio da capacidade de mobilizar trabalhadores precarizados, jovens cansados do establishment ou eleitores desiludidos com a política tradicional. Para Žižek, a campanha de Mamdani provou que os socialistas democráticos também são capazes de atrair esse segmento — inclusive parte do público que, nos últimos anos, havia aderido ao trumpismo.

O filósofo interpreta a vitória dentro de um cenário de reconfiguração mais ampla do sistema político dos Estados Unidos, que hoje abriga quatro polos distintos: republicanos ortodoxos, democratas tradicionais, populistas de direita e socialistas democráticos. Nesse contexto, Žižek identifica dois antagonismos centrais: de um lado, o embate entre Donald Trump e a elite liberal; de outro, a crescente tensão entre a ala ligada a Bernie Sanders e o restante das forças políticas, especialmente o establishment democrata. Para ele, é nesse segundo conflito — a disputa interna pelo rumo do Partido Democrata — que se concentra a batalha realmente decisiva da política norte-americana atual.

A vitória de Mamdani coloca esse embate em primeiro plano. Žižek afirma que, a partir de agora, o novo prefeito precisará enfrentar a resistência da velha guarda democrata em Nova York e, ao mesmo tempo, fortalecer suas conexões com socialistas democráticos em escala nacional. Seu desafio estratégico, segundo o filósofo, será disputar os trabalhadores e agricultores de baixa renda que anteriormente votaram em Trump e que hoje se mostram profundamente decepcionados.

A aposta, escreve Žižek, não está em conquistar o centro político — descrito como um espaço inerte —, mas em dialogar com os segmentos da classe trabalhadora que mantêm, de forma justificada, forte desconfiança em relação ao establishment.

Para Žižek, somente uma agenda radical, capaz de romper com os limites tradicionais do Partido Democrata, pode disputar esse eleitorado desiludido. A vitória de Mamdani, diz ele, não apenas desafia o domínio simbólico da direita populista, como revela que a esquerda possui capacidade de mobilização suficiente para reconfigurar as alianças políticas no país.

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