PF prende ex-presidente do INSS e impõe tornozeleira eletrônica a ex-ministro de Bolsonaro

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Com a CGU — comandada por ministro indicado por Lula — entre os órgãos à frente da investigação, governo reforça discurso de combate à corrupção mesmo com aliados entre os alvos

Da Redação

A Polícia Federal, em parceria com a Controladoria-Geral da União (CGU), deflagrou nesta quinta-feira (13) uma nova fase da Operação Sem Desconto, que investiga um esquema bilionário de fraudes em descontos indevidos sobre benefícios de aposentados e pensionistas do INSS. A ofensiva, realizada em 14 estados e no Distrito Federal, resultou em dez prisões preventivas, 63 mandados de busca e apreensão e bloqueio de bens de ex-dirigentes da autarquia.

Entre os principais alvos estão Alessandro Stefanutto, ex-presidente do INSS durante o governo Lula, e José Carlos Oliveira, ex-ministro da Previdência e ex-presidente do INSS na gestão Bolsonaro. Stefanutto foi preso preventivamente, enquanto Oliveira terá de usar tornozeleira eletrônica por decisão do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Governo apoia as apurações

A participação ativa da CGU, hoje comandada por Vinícius de Carvalho, ministro indicado por Lula, é vista como um sinal de respaldo político do governo às investigações — mesmo diante do desgaste causado pelo envolvimento de um ex-dirigente da atual gestão.

Desde o início da apuração, a CGU tem atuado como pilar técnico da operação, cruzando dados de auditorias internas e convênios firmados com entidades privadas. Fontes da pasta indicam que foi a partir desses relatórios que a PF conseguiu comprovar a movimentação irregular de cerca de R$ 6,3 bilhões entre 2019 e 2024.

O que foi apreendido

Durante as buscas, a PF encontrou grande volume de dinheiro vivo, armas e veículos de luxo, reforçando a dimensão financeira do esquema.

No Maranhão, agentes localizaram um cofre repleto de notas de R$ 50 e R$ 100.

Em Minas Gerais, apreenderam reais, dólares, munições e carregadores.

Em Goiás, um fuzil e uma pistola foram confiscados.

Já em São Paulo e Brasília, foram recolhidos carros de alto padrão, incluindo um Cadillac Escalade avaliado em mais de R$ 500 mil.

Presos e alvos da operação

Além de Stefanutto e Oliveira, foram presos:

Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira Filho, ex-procurador-geral do INSS, e sua esposa, Thaísa Hoffmann Jonasson, que teriam movimentado R$ 11,9 milhões;

André Fidélis, ex-diretor de Benefícios do INSS;

Tiago Ferreira Lopes e Cícero Marcelino de Souza Santos, ligados à Conafer (Confederação Nacional dos Agricultores Familiares);

Vinícius Ramos da Cruz, presidente do Instituto Terra e Trabalho (ITT);

Samuel Chrisóstomo do Bomfim Júnior, ex-contador da Conafer;

e Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, apontado como operador do esquema.

A PF também cumpriu mandados de busca nos gabinetes do deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG) e do deputado estadual Edson Araújo (PSB-MA).


Continuidade do esquema entre governos

As fraudes começaram a ser denunciadas ainda durante o governo Bolsonaro, mas as apurações avançaram efetivamente na atual gestão, após a CGU identificar irregularidades graves em convênios com associações de classe. As auditorias mostraram que parte das entidades não possuía estrutura real de atendimento e que 72% delas não apresentaram documentação completa.

A partir daí, os indícios foram encaminhados à PF, o que levou às prisões de ex-dirigentes de diferentes gestões. O caso revela uma continuidade do esquema entre governos, sem ruptura administrativa, o que amplia o impacto político e institucional da operação.

Impacto político

Ao permitir que a CGU conduza parte central da investigação, o governo Lula se distancia da narrativa de interferência política e projeta uma imagem de cooperação institucional com a PF e o Judiciário.

Nos bastidores, a avaliação é que o Planalto prefere arcar com o custo imediato da exposição de ex-auxiliares a ser acusado de obstruir investigações — estratégia que contrasta com críticas feitas à gestão Bolsonaro, quando as primeiras denúncias sobre o mesmo esquema surgiram sem providências concretas.

A Operação Sem Desconto se consolida, assim, como uma das maiores investigações de fraude previdenciária da história recente, e um teste político importante para o governo Lula, que tenta equilibrar disciplina institucional e blindagem de imagem diante de um escândalo que atravessa dois governos.

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