Proposta do “distrital misto”, apoiada por partidos de centro e direita, deve começar a valer nas eleições municipais de 2028 e pode redesenhar o sistema político brasileiro
Partidos de centro e de direita, hoje majoritários no Congresso Nacional, voltaram a articular uma ampla reforma no sistema eleitoral brasileiro. A proposta, que resgata o modelo do “distrital misto”, busca combinar voto proporcional e majoritário em um formato apresentado como capaz de aproximar o eleitor de seu representante e reduzir o custo das campanhas.
O movimento ocorre em meio ao fortalecimento de discursos sobre moralização da política e combate à infiltração do crime organizado — temas que voltaram à pauta após operações policiais contra facções no Rio de Janeiro. Na prática, porém, a proposta atende também a interesses partidários e estratégicos: o novo sistema tende a reduzir o peso dos “puxadores de voto”, fenômeno que tem favorecido políticos com forte presença nas redes sociais. Deputados com votações expressivas, que hoje ajudam a eleger colegas de legenda, passariam a garantir apenas o próprio mandato.
A mudança pode reconfigurar o equilíbrio de forças no Legislativo, ao privilegiar candidatos com base territorial definida e enfraquecer legendas menores e candidaturas coletivas ou temáticas, que não contam com redutos fixos. Especialistas avaliam que o resultado seria um Parlamento menos plural e mais concentrado nas forças tradicionais.
Estratégia e cálculo político
A tramitação da proposta foi planejada para ocorrer sem pressa. O relator, Domingos Neto (PSD-CE) e o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), decidiram adiar o debate para depois de 2025, o que impede qualquer impacto sobre as eleições gerais de 2026. A ideia é iniciar o novo modelo de forma gradual, começando pelas eleições municipais de 2028 — um teste político que permitiria ajustes antes da eventual adoção para o Congresso em 2030.
A escolha reduz resistências entre deputados federais e partidos preocupados em preservar suas bases eleitorais no curto prazo. O tema, no entanto, ainda divide lideranças e deve enfrentar disputas internas sobre a definição dos distritos eleitorais, ponto considerado o mais sensível da proposta.
Histórico e riscos
Apesar do clima de otimismo entre seus articuladores, o avanço do distrital misto enfrenta desafios políticos e institucionais. Desde a redemocratização, o Congresso discutiu diversas vezes a adoção desse modelo, mas nenhuma proposta chegou a ser votada em plenário. O único sistema alternativo levado à votação, o “distritão”, que transformaria a eleição proporcional em majoritária pura, foi rejeitado em 2017.
A nova tentativa também reabre o debate sobre o redesenho dos distritos eleitorais, tarefa que ficaria a cargo da Justiça Eleitoral. O risco é o chamado gerrymandering — a manipulação de fronteiras para favorecer determinados grupos, prática recorrente em países como os Estados Unidos e que pode comprometer a imparcialidade da representação.
Uma disputa pelo controle das regras do jogo
A proposta ressurge como uma das mais ambiciosas reformas políticas desde a redemocratização. Seus defensores falam em eficiência, transparência e moralização. Mas, nos bastidores, o distrital misto é visto como um instrumento de rearranjo de poder, capaz de redefinir o peso dos partidos e as condições de disputa eleitoral nas próximas décadas.
Mais do que uma simples mudança de sistema, o debate sobre o voto distrital expõe a luta silenciosa pelo controle das regras do jogo democrático — e pelos rumos da representação política no Brasil.
Entenda o que é o distrital misto
O sistema distrital misto combina dois tipos de voto: um para escolher o candidato do distrito (como num sistema majoritário) e outro para o partido político (como no modelo proporcional).
Na Alemanha, referência mais citada, os dois votos são compensatórios — o total de cadeiras é ajustado para refletir a força de cada partido em nível nacional, garantindo proporcionalidade e representatividade.
No Japão, o modelo é paralelo: os votos distritais e partidários não se compensam, o que tende a favorecer partidos grandes.
Especialistas defendem que, se adotado no Brasil, o modelo alemão seria o mais adequado, por equilibrar o vínculo local do eleitor com o candidato e preservar a pluralidade partidária que caracteriza a democracia brasileira.
