Da Redação
A militante política Clara Charf, uma das figuras históricas mais emblemáticas da resistência democrática no Brasil, morreu aos 100 anos de idade. Nascida em Maceió (AL), filha de judeus russos que fugiram da Europa, Clara transformou uma origem marcada por deslocamentos e adversidades em símbolo de coragem, lucidez e compromisso com a justiça social.
Em sua conta no X (antigo Twitter), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva prestou uma homenagem emocionada à companheira de décadas de militância. “O Brasil perde uma mulher extraordinária. E eu perco uma companheira de muitas caminhadas”, escreveu o presidente, lembrando a trajetória de quem “viveu o exílio, enfrentou a ditadura e defendeu incessantemente a democracia”.
Raízes alagoanas e formação política
Nascida em 1925 na capital alagoana, Clara Charf era a filha mais velha de Gdal e Ester, imigrantes judeus que se estabeleceram no Nordeste após deixarem a Europa em busca de paz, segundo o Memorial da Resistência de São Paulo. A infância foi marcada por dificuldades econômicas e pela perda precoce da mãe, vítima de tuberculose aos 40 anos. Ainda assim, Clara aprendeu inglês e piano, mostrando desde cedo disciplina e curiosidade intelectual — traços que mais tarde se converteriam em força política.
A família se mudou para Recife, e, aos 20 anos, Clara partiu para o Rio de Janeiro, onde se engajou de forma mais ativa na política. Em 1946, filiou-se ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) e, no ano seguinte, casou-se com Carlos Marighella, um dos principais nomes da resistência à ditadura militar.
Exílio, resistência e retorno
Durante os anos de chumbo, Clara foi presa e perseguida pelo regime. Após o assassinato de Marighella, em 1969, partiu para o exílio, vivendo dez anos fora do país, inicialmente em Cuba. Fora do país, manteve-se próxima de outros exilados brasileiros e latino-americanos, participando de debates políticos e atividades de solidariedade voltadas à reconstrução democrática da América Latina.
Clara retornou ao Brasil em 1979, com a Lei da Anistia, e retomou imediatamente a militância, agora voltada sobretudo à luta pelos direitos das mulheres e pela igualdade social. Em 1982, concorreu a deputada estadual pelo Partido dos Trabalhadores (PT), obtendo 20 mil votos, conforme registros do Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo — número insuficiente para se eleger, mas representativo de sua disposição em continuar lutando por um país mais justo.
Compromisso com a paz e a solidariedade
Em 2005, Clara coordenou no Brasil o movimento Mulheres pela Paz ao Redor do Mundo, vinculado à iniciativa internacional “1000 Women for the Nobel Peace Prize”, criada na Suíça. O projeto, citado pela Folha de S.Paulo, promoveu a indicação coletiva de mil mulheres ao Prêmio Nobel da Paz de 2005, reconhecendo ativistas que atuavam pela paz e pelos direitos humanos em todos os continentes. Coube a Clara a tarefa de selecionar 52 brasileiras que fariam parte da lista global — um marco de sua atuação em defesa da paz e da justiça social.
Um século de lucidez e coragem
Clara Charf viveu o século XX e parte do XXI com a serenidade de quem acreditava no poder transformador da política e da solidariedade. O tributo de Lula — que afirmou ter aprendido com ela “sobre política, resistência e humanidade” — sintetiza o sentimento de toda uma geração de militantes.
Sua morte encerra uma trajetória profundamente ligada à história das lutas democráticas no Brasil, mas também recoloca Maceió, sua cidade natal, no mapa simbólico da resistência política brasileira.
Mais do que viúva de Marighella, Clara Charf foi uma protagonista — uma mulher que fez da coerência e da esperança as maiores formas de rebeldia.
