STF exige relatório detalhado sobre ação policial nos complexos da Penha e do Alemão; caso de ex-secretário preso por ligação com facção expõe infiltração do crime no poder
Da Redaçaõ
Audiência do STF no Rio mira transparência e responsabilização
O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), estará no Rio de Janeiro nesta segunda-feira (3) para se reunir com o governador Cláudio Castro (PL). A audiência ocorre uma semana após a megaoperação policial nos complexos da Penha e do Alemão, que deixou ao menos 121 mortos, segundo dados oficiais — uma das ações mais letais da história do estado.
O encontro, marcado para as 11h no Centro Integrado de Comando e Controle, contará com a presença do secretário de Segurança Pública, do comandante da Polícia Militar, do delegado-geral da Polícia Civil e do diretor da Superintendência-Geral de Polícia Técnico-Científica. Às 18h, Moraes se reunirá com o prefeito Eduardo Paes (PSD).
O ministro exige um relatório detalhado da operação, com informações sobre planejamento, número de agentes, armamentos, mortos, feridos e detidos. Também solicitou dados sobre o uso de câmeras corporais, a atuação dos peritos e as medidas adotadas para assistência às vítimas e investigação de abusos.
Operação Contenção: ação militarizada e saldo trágico
Batizada de Operação Contenção, a ofensiva reuniu 2.500 agentes das polícias Civil e Militar, além de helicópteros, drones, 32 blindados e 12 veículos de demolição. A ação mirava cerca de 100 integrantes do Comando Vermelho (CV), resultado de um ano de investigações.
Mas o saldo foi devastador. Moradores relataram que corpos foram retirados por civis durante a madrugada, enquanto a cidade viveu um clima de guerra. Escolas e postos de saúde fecharam, e linhas de ônibus foram suspensas.
O governador Cláudio Castro classificou a operação como um “sucesso”, afirmando que “as únicas vítimas foram os policiais”. A declaração provocou reação imediata de especialistas e entidades de direitos humanos, que apontam uso de força ‘sem inteligência’ e ausência de controle institucional.
Especialistas apontam massacre e política de vingança
Para a pesquisadora Carolina Grillo, da Universidade Federal Fluminense (UFF), a operação configura um massacre. Segundo ela, “essas prisões e apreensões não compensam o enorme custo que houve para a população”, denunciando o caráter vingativo e militarizado das ações.
Analistas destacam que o episódio reflete um modelo de governança que aposta na violência como estratégia política, transformando a “segurança sem direitos” em bandeira eleitoral. O resultado, afirmam, é um Estado que mata, mas não governa.
Ex-secretário preso revela infiltração do crime no governo
O discurso de força e punição também funciona como cortina de fumaça para a fragilidade ética do poder político no Rio. O caso de Alessandro Pitombeira Carracena — ex-secretário de Marcelo Crivella e ex-subsecretário de Cláudio Castro — é emblemático.
Preso pela Polícia Federal em setembro, na Operação Zargun, Carracena é acusado de atuar como elo político do Comando Vermelho, intermediando informações sobre ações policiais e oferecendo proteção institucional a criminosos. Segundo as investigações, ele recebia pagamentos da facção e influenciava decisões administrativas em benefício de aliados no submundo do crime.
Carracena foi secretário municipal de Ordem Pública em 2020, na gestão de Crivella, e secretário estadual de Esporte e Lazer em 2022, já no governo Castro. Também ocupou o cargo de subsecretário de Defesa do Consumidor, do qual foi exonerado em janeiro deste ano.
Reportagem de O Globo revelou que Carracena atuava ao lado de Gutemberg de Paula, nome indicado pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tanto na Prefeitura do Rio quanto no governo estadual. O próprio Carracena teria sido indicado pelo senador para substituir Gutemberg na Secretaria de Esporte — o que Flávio Bolsonaro nega.
A “bukelização” da segurança pública e o colapso do Estado
A infiltração do crime nas estruturas políticas revela o paradoxo do modelo fluminense: o Estado atua com brutalidade nas favelas, mas tolera a criminalidade nos gabinetes.
Essa dinâmica fortalece o fenômeno apelidado de “bukelização” — em referência ao presidente salvadorenho Nayib Bukele —, em que o discurso autoritário de combate ao crime serve para legitimar o esvaziamento das garantias democráticas.
O resultado é um colapso moral e institucional: um Estado que confunde justiça com vingança e segurança com espetáculo.

Modelo fracassado e alternativas possíveis
O ex-secretário nacional de Segurança Pública, Ricardo Brisolla Balestreri, aponta que o Brasil repete há décadas um modelo racista e populista, que mira o “térreo” — as favelas — e poupa o “andar de cima”, onde circulam o dinheiro e o poder do crime.
Citando dados da UFF, ele lembra que o Rio teve 18 mil operações policiais entre 2007 e 2022, quase 600 resultaram em chacinas, com eficiência inferior a 2%.
Para mudar esse cenário, Balestreri defende quatro pilares estruturais:
- Estancar o fluxo de armas longas, como fuzis e metralhadoras.
- Substituir operações pontuais por policiamento permanente e comunitário.
- Investir em urbanismo social, ampliando educação, trabalho e lazer.
- Atacar o crime financeiro, rastreando o dinheiro ilícito e fortalecendo a inteligência policial e o COAF.
STF cobra cumprimento das restrições às operações
O ministro Edson Fachin, também do STF, lembrou que seguem em vigor as restrições impostas em 2020 para operações policiais em comunidades — regras que visam conter abusos e proteger civis.
Com a audiência desta segunda-feira, Alexandre de Moraes tenta impor transparência e responsabilização, num momento em que o Rio de Janeiro simboliza a crise nacional da segurança pública: um Rio entre o autoritarismo e o abandono, onde a morte continua sendo ‘a política‘.
