ALAGOAS E A CULTURA AFRO-ATLÃNTICA EM RECONHECIMENTO

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Klinger Silva

No último dia 31 de outubro (sexta) inaugurou-se a 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, cujo tema “Brasil e África: ligados culturalmente nos ritos e raízes” é importantíssimo em termos simbólicos, políticos e sociais.  Pois trata-se aqui de um momento singular, oriundo da resistência, luta e resiliência de amplas camadas precarizadas da sociedade, em especial do povo negro, contra a cruel segregação secular e estrutural de nossa formação socioeconômica. Processo imprescindível de reparação histórica

A tradição ancestral brasileira de matriz africana tem em seu panteão de divindades Iroco. Orixá senhor do tempo. Tempo que dá “sentido, razão, cura e solução”. Uma Interpretação possível e particular da temporalidade, historicidade e consciência histórica.  Sintetizada no fluxo contínuo da vida representado pela divindade Yorùbá. De fato, o agir, a compreensão e o pertencimento, relativos à uma determinada época simbólico-histórica, são fatores indispensáveis para práticas e estratégias democráticas que se pretendem transformadoras quer no campo da justiça quer no que respeita às liberdades e garantias de todos os cidadãos.

Acredita-se que a Bienal da UFAL de 2025 está cumprindo, como jamais visto antes, sua função educacional e social e estratégica. De fato, verifica-se uma sintonia com o contemporâneo, em resposta ao ponto de inflexão de mudança na correlação de forças entre a mentalidade conservadora e tradicional-colonial e os movimentos do povo negro ancorados nas estratégias político culturais afrodescendentes e de seus aliados. Impactando institucionalmente em nossa universidade.

 O Doutor Honoris Causa Zezito Araújo durante a cerimônia de sua Titulação, no segundo dia da Bienal, notificou que a homenagem ali recebida é fruto de um processo coletivo e secular de lutas do povo negro. E que, na verdade, se deveria relativizar o mérito exclusivamente pessoal. Sabemos, evidentemente, da vida e luta de Zezito, e de que modo contribuíram para as atuais conquistas disruptivas da estruturação étnico, social e política segregacionista em Alagoas e Brasil. A fala de Zezito não é pura retórica vazia de conteúdo. É reveladora de que as dores e sofrimentos de negras/negros, em suas histórias de vida pessoais e coletivas podem significar um forte antídoto às ilusões de poder e glória,  fundados nas vaidades tão comuns ao ser humano e em organizações socioinstitucionais como nossa universidade que é puro reflexo do contexto cultural ao qual estamos todos inseridos.

Por outro lado, se faz necessário notificar a presença de personalidades locais e nacionais na cerimônia de abertura da Bienal. Em especial, aquelas que efetivamente foram e são essenciais para o processo de reparação histórica em curso em Alagoas. Sabe-se, evidentemente, quem sempre esteve aliado e tomou decisões históricas fundamentais, enquanto portadores passageiros no cumprimento obrigatório de suas funções na representação pública. E na direção verdadeira da justiça social.

Notifica-se que aqueles que devem ser direta e verdadeiramente reverenciados são as grandes lideranças religiosas de matriz, de fato, africana de Alagoas, o Movimento Negro e o Povo de Santo; como também: conferencistas, escritores, colaboradores e a sociedade à qual de fato o evento pertence. Por fim, importa parabenizar o povo trabalhador e dos terreiros, os valorosos funcionários e os professores da UFAL que trabalham diretamente na preparação, operacionalização e viabilidade da 11ª Bienal do Internacional do Livro em Alagoas.

Klinger Silva é Mestre em Patrimônio Cultural/FCSH-Universidade NOVA de Lisboa

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