Da Redação
A megaoperação realizada nesta terça-feira (28) no Complexo da Penha e no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro, reacendeu o debate sobre o modelo de segurança pública adotado pelo governo de Cláudio Castro (PL). O saldo oficial ainda é incerto — o próprio governador admitiu que “os números vão mudar com certeza” —, mas já se sabe que houve dezenas de mortos, incluindo quatro policiais.
Castro classificou a ação como um “sucesso” e afirmou que as únicas vítimas foram os agentes de segurança. “De vítima ontem, só tivemos os policiais”, declarou o governador, segundo a Agência Brasil. A declaração provocou reação entre especialistas e entidades de direitos humanos, que veem na retórica oficial uma tentativa de legitimar o uso da força, sem inteligência, em áreas pobres e controladas por facções.
A operação e o saldo de mortes
A ação, que mobilizou cerca de 2,5 mil agentes nas comunidades da Penha e do Alemão, foi apresentada pelo governador Cláudio Castro (PL) como uma “ofensiva histórica contra o crime organizado”. Os alvos seriam integrantes do Comando Vermelho (CV) e de grupos armados que disputam o controle territorial na zona norte da capital.
Mas especialistas em segurança pública e direitos humanos classificaram a operação como um massacre, com características de ação militar de vingança, e não de política pública planejada. A pesquisadora Carolina Grillo, da Universidade Federal Fluminense (UFF), criticou a letalidade das ações policiais e afirmou que “essas prisões e apreensões não compensam o enorme custo que houve para a população”, em entrevista ao portal Afinsophia.
A “bukelização” como projeto político
Enquanto as imagens de corpos retirados das matas da Penha repercutiam nas redes sociais, o deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) exaltava o modelo do presidente salvadorenho Nayib Bukele, defendendo o que chamou de “bukelização” do Brasil — uma política de endurecimento absoluto contra o crime, com prisões em massa, militarização das forças de segurança e restrição de garantias judiciais.
Nayib Bukele, presidente de El Salvador desde 2019, é amplamente conhecido por seu estilo autoritário e populista. Sob o argumento de combater as gangues locais, ele impôs um estado de exceção que suspendeu direitos civis básicos, como o habeas corpus e a liberdade de imprensa.
Mais de 80 mil pessoas foram presas sem julgamento, e o país vive sob forte controle das forças armadas e da propaganda estatal. Sem liberdade de imprensa e expressão no país, as denúncias de tortura e desaparecimentos são silenciadas, com isso Bukele mantém altos índices de popularidade, o que o transformou em símbolo de uma direita que defende “mão de ferro” contra o crime — mesmo à custa da democracia.

Para Eduardo Bolsonaro, o sucesso de Bukele em reduzir os homicídios em El Salvador seria prova de que o país precisa apoiar ações como a de Claúdio Castro, por isso é preciso bukelizar o Brasil. O discurso, amplamente replicado por influenciadores da extrema direita, aponta para um combate ao crime sem interferência do Judiciário e sem medo de reação da população e da mídia.
Juristas e ministros do Supremo Tribunal Federal reagiram com preocupação. Gilmar Mendes afirmou recentemente que “é preciso combater o crime sem cometer crime”, em crítica direta ao modelo salvadorenho, que mantém pessoas presas sob estado de exceção, sem direito de defesa.
Para especialistas, a “bukelização” é mais do que uma proposta de segurança pública — é um projeto político autoritário, que busca consolidar o poder através da militarização da vida civil e da erosão das instituições democráticas.
Carracena, Castro e Crivella: o elo entre poder e crime
O discurso de força e punição também serve de cortina de fumaça para a fragilidade ética e institucional do próprio poder político no Rio. O caso de Alessandro Pitombeira Carracena — ex-secretário de Marcelo Crivella e ex-subsecretário de Cláudio Castro — é um exemplo emblemático.
Preso pela Polícia Federal em setembro, na Operação Zargun, Pitombeira é acusado de atuar como elo político do Comando Vermelho, intermediando informações sobre ações policiais e oferecendo proteção institucional a criminosos. Segundo as investigações, ele teria recebido pagamentos da facção e influenciado decisões administrativas em benefício de aliados no submundo do crime.
Carracena já foi secretário municipal de Ordem Pública da capital, na gestão de Marcelo Crivella na Prefeitura do Rio, em 2020, e secretário estadual de Esporte e Lazer do Rio, na gestão do governador Cláudio Castro, em 2022. Ele também foi subsecretário estadual de Defesa do Consumidor, cargo do qual foi exonerado em janeiro deste ano.
Segundo matéria publicada no Globo, em todas essas pastas ele atuou ao lado de Gutemberg de Paula, nome indicado pelo senador Flávio Bolsonaro no governo do Rio e na gestão de Crivella. Além disso, o próprio Carracena teria sido indicado pelo senador para substituir Gutemberg na secretaria de Esporte, quando o aliado deixou o governo para tentar uma vaga de deputado federal pelo Partido Liberal. O senador nega.
Um Rio entre a repressão e o autoritarismo
A operação de ontem, com sua dimensão de massacre, não pode ser lida isoladamente. Ela ocorre em um contexto em que o governo fluminense busca legitimar-se pelo discurso da força, enquanto parte da direita tenta transformar a “segurança sem direitos” em plataforma eleitoral.
A prisão de Carracena expõe a infiltração do crime no Estado, enquanto a “bukelização” promovida por Eduardo Bolsonaro legitima a suspensão das garantias democráticas em nome da “guerra ao crime”. O resultado é um Rio de Janeiro à beira do colapso moral: onde o Estado mata, mas não governa; e onde o discurso de ordem serve, muitas vezes, para proteger os mesmos grupos que deveriam ser combatidos.
Em suma, o que se vê é a consolidação de um modelo em que o combate à violência convive com a violência institucional — e onde a “ordem” é usada como pretexto para o avanço de uma política de exceção.
