Evento celebra saberes tradicionais e promove debate sobre reconhecimento institucional de mestres populares
Lúcia Barbosa
A 11ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas será realizada de 31 de outubro a 9 de novembro de 2025, no Centro de Convenções Ruth Cardoso, em Maceió. Promovida pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal), por meio da Edufal e em parceria com o governo de Alagoas, o evento reafirma seu papel como o maior encontro literário, cultural e artístico do estado.
Neste ano, a Bienal homenageia os países africanos de língua oficial portuguesa (PALOP) — Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Moçambique e São Tomé e Príncipe — sob o tema “Brasil e África ligados culturalmente nas suas raízes e ritos”. A proposta celebra a confluência de expressões culturais afro-brasileiras e africanas, destacando a influência da língua, da literatura, da música, da culinária e das tradições populares na formação da identidade brasileira.
Os homenageados desta edição serão Mãe Neide Oyá d’Oxum, patronesse da Bienal; Mãe Mirian, madrinha; e Pai Célio, padrinho do evento — personalidades reconhecidas pela trajetória na defesa das culturas de matriz africana e pela contribuição à preservação dos saberes tradicionais de Alagoas.
Entre os destaques da programação, está a mesa-redonda “Notório saber e reparação histórica — Culturas afro, indígena e populares de Alagoas”, que ocorrerá no dia 3 de novembro, das 14h às 15h45, na Sala Manguaba. O encontro propõe uma reflexão sobre o reconhecimento institucional dos saberes tradicionais como formas legítimas de produção de conhecimento, promovendo o diálogo entre universidades, núcleos de extensão e lideranças comunitárias.
Participam da mesa: Danilo Marques, coordenador do NEABI/Ufal; Wilson Santos, do Laboratório de Percussão Popular e Afro-brasileira da Ufal; Cezar Nonato, pró-reitor de Extensão da Ufal; Sanadia Gama, pró-reitora de Extensão da Uneal; professora Lígia Ferreira, da Faculdade de Letras da Ufal; e professor Bruno Goulart, da Unilab/CE, com participação por vídeo chamada.
A mesa foi proposta por Wilson Santos, ativista na preservação da cultura popular de Alagoas e referência em percussão afro-brasileira. Segundo ele, a ideia nasceu de uma inquietação antiga: “Alagoas, apesar de sua riqueza cultural afro-indígena e popular, ainda não possui uma resolução institucional que reconheça o notório saber em suas universidades”, afirma. Para o mestre, enquanto outros estados do Nordeste já avançam nesse debate, “ainda estamos em dívida com mestres e mestras que constroem conhecimento há décadas em seus territórios”.
Em sua avaliação, a Bienal é o espaço ideal para ampliar o debate sobre o tema. “A Bienal do Livro é um espaço simbólico e potente para provocar esse diálogo — entre universidade, comunidade e políticas públicas — e dar visibilidade a uma pauta que é, ao mesmo tempo, acadêmica, política e ancestral”, ressalta.

Wilson explica que o notório saber é o reconhecimento formal de que existem formas legítimas de produzir conhecimento fora da academia. Ele cita como exemplos os saberes de mestres griôs, rezadeiras, parteiras, capoeiristas e líderes de tradições populares, que “são construídos na prática, na oralidade e na ancestralidade, sustentando comunidades inteiras por gerações”.
Na prática, o reconhecimento permite que esses mestres atuem em universidades como professores, orientadores e consultores, mesmo sem formação acadêmica formal. “É uma forma de abrir as portas da universidade para o território e fazer com que a extensão seja uma via de mão dupla, onde o saber acadêmico aprende com o saber comunitário”, explica.
Para Wilson, reconhecer o notório saber é um ato de reparação e de transformação institucional. “Ele rompe com a lógica colonial que historicamente deslegitimou os saberes afro-indígenas e populares”, afirma.
“Quando uma universidade reconhece um mestre popular como detentor de saber, ela está dizendo que o conhecimento não tem uma única forma, nem um único lugar de origem — e isso transforma tudo: currículos, práticas pedagógicas e as próprias relações de poder dentro da educação.”
Com uma programação diversificada e gratuita, a 11ª Bienal do Livro de Alagoas espera reunir cerca de 400 mil visitantes ao longo de dez dias de atividades, que incluem lançamentos de livros, oficinas, rodas de conversa, apresentações artísticas e espetáculos de música, dança e teatro. O evento consolida-se, assim, como um espaço de celebração da literatura e da cultura, mas também de reflexão sobre identidade, memória e reparação histórica.
A abertura acontecerá na sexta-feira (31), a partir das 18h, no Centro de Convenções de Maceió.
