Governador do Rio recua após declarar que não recebeu ajuda de Brasília; Planalto convoca reunião emergencial e reforça oferta de cooperação na segurança pública
Da Redação
A escalada da violência no Rio de Janeiro, após uma operação policial que resultou na morte de pelo menos 116 pessoas, entre civis e policiais, provocou uma série de reações no governo federal e expôs um novo desencontro entre o Palácio do Planalto e o governador Cláudio Castro (PL).
Na terça-feira (28), Castro afirmou publicamente que não havia recebido apoio do governo federal no enfrentamento à criminalidade no estado — declaração que gerou forte repercussão em Brasília. Horas depois, o governador ligou para a ministra das Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, para se desculpar, dizendo que não teve a intenção de criticar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nem o governo federal.
Em nota, a Casa Civil da Presidência da República informou que o presidente em exercício, Geraldo Alckmin, coordenou uma reunião de emergência para monitorar os desdobramentos da operação. O encontro contou com a presença dos ministros Rui Costa (Casa Civil), Gleisi Hoffmann (Relações Institucionais), Jorge Messias (Advocacia-Geral da União), Macaé Evaristo (Direitos Humanos e da Cidadania), Sidônio Palmeira (Secom) e do secretário-executivo do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Manoel Carlos.
O governo federal afirmou que não houve qualquer consulta ou pedido de apoio prévio por parte do estado para a realização da operação policial que terminou em tragédia. Após o episódio, o ministro Rui Costa entrou em contato com Cláudio Castro e propôs uma reunião emergencial no Rio de Janeiro nesta quarta-feira (29), com a presença dele e do ministro Ricardo Lewandowski (Justiça e Segurança Pública), para alinhar medidas conjuntas de segurança.
A Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen), vinculada ao Ministério da Justiça, confirmou que o governo do Rio de Janeiro solicitou 10 novas vagas em presídios federais para a transferência de presos de alta periculosidade — um pedido que depende de autorização judicial. O Rio é atualmente o segundo estado com maior número de detentos sob custódia federal, com 59 presos de alta periculosidade, 12 deles incluídos apenas em 2025.
Em paralelo, o Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC) afirmou acompanhar com preocupação os desdobramentos da operação no Complexo do Alemão e em outras áreas da capital, ressaltando que o combate ao crime deve ser conduzido com inteligência, planejamento e respeito à vida. O órgão destacou que a segurança pública deve proteger todas as pessoas, especialmente as mais vulneráveis, e que “a preservação da vida é o princípio fundamental para garantir paz e justiça”.
As reações do governo federal indicam uma tentativa de recompor a relação política com o Rio de Janeiro, ao mesmo tempo em que busca reafirmar uma agenda de segurança pública baseada em coordenação, responsabilidade e direitos humanos. Já para o governo estadual, pressionado por uma crise de imagem e pelos resultados da operação, o desafio é mostrar controle sobre suas forças de segurança — sem agravar o distanciamento em relação a Brasília.
A sucessão de notas e reuniões emergenciais evidencia que, além da crise de segurança, há também uma disputa de narrativa em curso: de um lado, o Palácio Guanabara tenta se afastar da responsabilidade pelas mortes; de outro, o Planalto busca demonstrar que não faltou apoio — apenas diálogo.
