Da Redação
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva completa 80 anos nesta segunda-feira (27).O tempo, para ele, nunca foi apenas passagem — é matéria-prima. É chão, ferrugem, lágrima e resistência. Aos 80, Lula não é apenas o primeiro octogenário a ocupar a Presidência do Brasil; é também o símbolo de um país que aprendeu, entre quedas e renascimentos, a fazer da esperança uma forma de governo.
“O tempo dos 80 anos é o tempo da maturidade máxima do ser humano.”— Lula, em discurso na Indonésia, 2025
O menino do pau de arara
Nasceu em 27 de outubro de 1945, em Caetés, então parte de Garanhuns (PE) — um pedaço de terra árida onde a infância se confundia com a seca.
Filho de Dona Lindu, mulher de mãos calejadas e coragem funda, partiu aos sete anos rumo ao Sudeste, em um caminhão “pau de arara”. Foram 13 dias de estrada e esperança até São Paulo. Ali, entre os fundos de um bar e o barulho das máquinas, o menino aprendeu que a vida é feita de luta e improviso.
Aos 17, formou-se torneiro mecânico pelo Senai — profissão que lhe ensinaria o peso da ferramenta e o valor da palavra. Em 1963, perdeu o dedo mínimo da mão esquerda em uma prensa de fábrica. Ganhou, em troca, o símbolo da sua história: um corpo marcado pela classe que ele nunca deixou de representar.
O despertar do sindicalista
Em 1975, Lula foi eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Sob sua liderança, as greves entre 1978 e 1980 reuniram mais de 200 mil trabalhadores e transformaram estádios em assembleias e operários em oradores.
Nas manhãs frias de São Bernardo do Campo, enquanto o país ainda vivia sob o peso da ditadura, ele descobriu o poder de uma multidão unida.

“Quando o trabalhador fala, o Brasil inteiro ouve.” — costumava dizer.
Das greves, nasceu o verbo; do verbo, o partido. Em 10 de fevereiro de 1980, em São Paulo, foi fundado o Partido dos Trabalhadores (PT) — uma legenda feita de sonhos, sindicatos, comunidades e fé. Era a tentativa de transformar o grito em projeto de nação.
Três derrotas antes da alvorada
Lula enfrentou as urnas em 1989, 1994 e 1998. Perdeu todas. Mas aprendeu que há derrotas que educam a paciência e moldam o caráter.
O operário voltava sempre — com mais rugas, mais votos e a mesma teimosia. Até que, em 27 de outubro de 2002, aos 57 anos, foi eleito presidente da República Federativa do Brasil, com 52,8 milhões de votos.
No dia da diplomação, sua voz embargou: “Se havia alguém que duvidava que um torneiro mecânico chegasse à Presidência, 2002 provou o contrário.”
Os anos dourados da inclusão
Durante seus dois primeiros mandatos (2003–2010), Lula viu o Brasil mudar de roupa. O salário mínimo cresceu, o emprego floresceu, o povo entrou no orçamento. Mais de 36 milhões de brasileiros saíram da pobreza.O Bolsa Família virou referência global.O Brasil saiu do Mapa da Fome da ONU e entrou na pauta do mundo.
Houve também grandes feitos:em 2008, o país recebeu o grau de investimento das agências internacionais, e a Petrobras realizou a primeira extração de petróleo do pré-sal — o ouro escondido sob sete mil metros de mar.
Ao deixar o governo em 2010, tinha 87% de aprovação popular, segundo o Datafolha. Era o operário mais amado do Brasil — e o mais improvável dos estadistas.
O tempo das sombras

Depois da glória, vieram os ventos contrários. Em 2018, Lula foi condenado e preso na Operação Lava Jato — um processo depois anulado pelo Supremo Tribunal Federal, que reconheceu a parcialidade dos julgamentos.
Foram 580 dias de prisão, tempo em que o silêncio falou mais alto que os discursos.
De dentro da cela, ele repetia a quem o visitava:“Eles podem prender o corpo, mas não prendem as ideias.” E quando saiu, o mundo já era outro — mas ele ainda era o mesmo.
O retorno à presidência
Em 2022, vinte anos após a primeira vitória, Lula voltou às urnas.Tinha o rosto marcado e a mesma voz rouca. Formou uma aliança improvável com o ex-adversário Geraldo Alckmin e venceu com 60,3 milhões de votos — a maior votação da história brasileira.

No dia 1º de janeiro de 2023, subiu novamente a rampa do Palácio do Planalto. Desta vez, não foi sozinho. Levou consigo o povo — uma catadora, um indígena, um menino negro, um operário, um professor. Era a metáfora perfeita: a rampa não leva apenas Lula ao poder, leva com ele o povo brasileiro
O presidente octogenário
Aos 80, Lula é o retrato de um país que envelhece, mas não se rende. Celebra não apenas a vida, mas o que dela se fez: uma epopeia popular, costurada entre o chão e o Planalto.
Hoje, o Brasil volta a crescer, melhora seus indicadores sociais e, pela segunda vez em vinte anos, sai do Mapa da Fome da ONU. É como se o ciclo se fechasse — e recomeçasse.
“Enquanto eu tiver voz, estarei lutando pelo Brasil.”
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