Da Redação
Cinco décadas depois da morte de Vladimir Herzog sob tortura nas dependências do DOI-Codi de São Paulo, o Brasil ainda enfrenta o desafio de lidar com as marcas e as heranças da ditadura militar. O assassinato do jornalista, em 25 de outubro de 1975, tornou-se símbolo da resistência democrática e da luta por verdade e justiça — temas que continuam a ecoar no presente, em meio às tentativas de reescrever a história e de anistiar novos atentados à democracia.
Neste sábado (25), a Catedral da Sé, em São Paulo, voltou a ser o palco de um dos momentos mais emblemáticos da história recente do país. A cerimônia inter-religiosa em homenagem aos 50 anos da morte de Herzog reuniu centenas de pessoas — familiares, artistas, religiosos, jornalistas e autoridades — em um ato que rememorou a histórica celebração de 1975, quando milhares desafiaram o regime militar e se uniram contra a barbárie da tortura.
Organizado pela Comissão Arns e pelo Instituto Vladimir Herzog (IVH), o evento reafirmou o compromisso com a preservação da memória e a defesa dos direitos humanos. Durante a celebração, vozes se levantaram contra a impunidade histórica garantida pela Lei da Anistia, que até hoje impede a responsabilização de torturadores e assassinos da ditadura.
“A anistia de 1979, por si só, é uma aberração, porque o regime autoritário da época nunca reconheceu que cometeu crimes. Então, como anistiar quem não cometeu crime?”, questionou Ivo Herzog, filho do jornalista e presidente do conselho do IVH.
A engrenagem da repressão
O caso Herzog ajuda a expor o funcionamento da máquina repressiva da ditadura. Segundo levantamento da Folha de S.Paulo com base no relatório da Comissão Nacional da Verdade (CNV), ao menos 113 pessoas morreram ou desapareceram sob custódia do regime entre 1964 e 1985, em locais oficiais e clandestinos. Outros 194 casos estão ligados a agentes do Estado em diferentes circunstâncias — totalizando 405 mortes e desaparecimentos durante o período ditatorial.
O eixo Rio-São Paulo concentrou quase metade das ocorrências, com 198 casos mapeados. A simulação de suicídios, como no caso de Herzog, era um método recorrente. A mesma versão foi usada, por exemplo, na morte de José Gomes Teixeira, militante do MR-8, em 1971, na base aérea do Galeão, no Rio de Janeiro.
O auge da repressão ocorreu no governo Emílio Garrastazu Médici (1969–1974), responsável por 234 execuções — entre elas, a do ex-deputado Rubens Paiva, morto no DOI-Codi do Rio. Quando Herzog foi assassinado, o país já vivia o início da “abertura lenta e gradual” sob Ernesto Geisel, mas a violência do Estado ainda ceifava vidas: 41 pessoas foram mortas após o episódio.
Memória que resiste
A morte de Herzog foi um divisor de águas. Ao contrário de outras vítimas, o caso mobilizou a opinião pública, impulsionou movimentos sociais e religiosos e marcou o início da derrocada moral do regime. A missa ecumênica de 1975, também na Catedral da Sé, foi um ato histórico de resistência, desafiando o silêncio imposto pela censura e pelo medo.

Hoje, 50 anos depois, o nome de Vladimir Herzog continua a representar a luta por democracia e pela preservação da verdade. Criado em 2009, o Instituto Vladimir Herzog atua para manter viva a memória das vítimas da ditadura e promover a educação em direitos humanos.
Durante o ato deste sábado, Ivo Herzog traçou um paralelo entre os crimes da ditadura e as tentativas de golpe de 8 de janeiro de 2023, criticando as propostas de anistia aos condenados pelos ataques às sedes dos Três Poderes.
“Não há democracia sem memória, nem futuro sem justiça”, afirmou.
Entre o passado e o presente
O aniversário de 50 anos da morte de Vladimir Herzog convida o país a refletir sobre as feridas ainda abertas de sua história recente. O episódio revela não apenas a brutalidade de um regime que perseguiu, torturou e matou, mas também a importância da resistência civil e da memória como instrumentos de transformação.
Enquanto o Brasil revisita o passado, as vozes de Herzog e das mais de 400 vítimas da ditadura ecoam como um lembrete de que a democracia se constrói — e se protege — todos os dias.
